Entrevista a Pedro de Almeida, Membro da ASPO
29 Outubro, 2008 / Pedro de Almeida
“O grande problema, em relação ao petróleo, é que não existem boas alternativas (…)”
É um dos sete membros da secção portuguesa da Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás. Como é que surgiu este movimento?
Pedro de Almeida – A associação foi fundada por alguns dos autores históricos que tem trabalhado na previsão da data em que se vai dar o máximo da produção mundial de petróleo. Esse momento é geralmente conhecido pela expressão inglesa “Peak Oil”. Depois do “Peak Oil”, a produção de petróleo vai começar a diminuir. Um dos cientistas que criaram esta organização é Colin Campbell, um geólogo que trabalhou na industria do petróleo mas que desde há alguns anos deixou de trabalhar para empresas, e se tem dedicado quase exclusivamente à análise do problema do “Peak Oil”. Ele um colega publicaram um artigo fundamental sobre esta questão em 1998 e depois, no início de 2001, fundaram a ASPO (Association for the Study of Peak Oil and Gas). A ASPO tem várias secções nacionais, entre as quais a portuguesa. Os membros desta associação dedicam-se a estudar todos os problemas em torno do “Peak Oil”.
E quais são as conclusões a que têm chegado, na área da exploração petrolífera e dos combustíveis fósseis?
Pedro de Almeida – Nos últimos anos a produção de petróleo tem subido pouco. O máximo de produção mundial será quase de certeza atingido até 2012, e esse máximo não será muito acima da produção actual. Em condições de preços normais, o consumo tenderia a subir mais de 2% todos os anos. Mas, claro, não se pode consumir mais petróleo do que o que se produz. Daí que se registe uma subida de preços para que o consumo não suba tanto. A subida de preços é o mecanismo de mercado que faz com que o consumo se vá comprimindo um pouco. Neste momento estamos ainda no início da subida de preços, que apenas começou por volta de 2003.
Mas mesmo com o agravamento nos custos do petróleo, o consumo deste parece não abrandar?
Pedro de Almeida – O crescimento do consumo tem abrandado. A nível mundial o consumo anda actualmente a crescer cerca de 1% por ano, quando há poucos anos atrás crescia mais de 2%. O petróleo é extremamente eficiente, e por isso é muito difícil de substituir. É por isso que o consumo não diminui mais. É uma matéria que resulta da concentração da energia solar ao longo de centenas de milhões de anos. Os seres humanos não tiveram de fazer nada para que ela fosse criada, já encontraram esta matéria pronta a ser explorada. A utilização industrial do petróleo começou em 1859. A partir daí o consumo foi crescendo e neste momento ele é usado para muitas coisas. Acima de tudo é usado queimar em motores de veículos, ou seja, para transportes. Nos transportes o petróleo domina completamente e, em algumas classes de transportes (como é o caso dos aviões e dos navios), o petróleo representa mesmo 100% da energia utilizada. No entanto, o petróleo é tambem usado para outros fins, como a produção de “produtos petroquímicos” (como os plásticos), para aquecimento, para produção de electricidade, etc.. O grande problema é que não existem boas alternativas: O petróleo é tão conveniente que não tem substitutos à altura. O petróleo é extraído da terra em quantidades enormes por um preço limitado. Para além disso, é concentrado (num quilo de petróleo temos muito mais energia do que num quilo de baterias, por exemplo), é fácil de transportar, é fácil de transformar em energia motora nos motores de combustão e tem uma excelente rede de distribuição. Nós utilizamos o petróleo porque este é o melhor produto que existe e as alternativas ainda são caras e ineficientes.
E então quais são as principais mudanças que devem ser implementadas?
Pedro de Almeida – Aquilo que se pode fazer no curto prazo é essencialmente ganhar eficiência. Na escala actual de utilização, nós ainda não temos tecnologias para substituir o petróleo. Precisamos de fazer evoluir essas tecnologias. Actualmente, com óleos e álcoois vegetais podemos fazer quase tudo o que fazemos com petróleo, incluindo as aplicações petroquímicas. No entanto, não há tecnologia que permita produzir biocombustíveis e óleos vegetais numa escala minimamente comparável à actual produção de petróleo. Podemos também utilizar mais a electricidade, por exemplo em automóveis eléctricos e comboios. Quando o TGV chegar a Portugal teremos um meio de transporte movido a energia eléctrica, que nos leva daqui a Paris ou a Madrid, a mais de 300 quilómetros por hora, e que por isso pode competir com o transporte aéreo. Se eu faço 20 quilómetros para ir de casa ao emprego e outros 20 no sentido contrário, um automóvel movido a energia eléctrica é perfeito para isso. O caso muda de figura se a utilização desse mesmo veículo for em longas distâncias. Se quiser ir daqui para o Algarve num carro eléctrico, já não será uma boa solução. Mas as soluções são assim, parciais.
Defende então um abrandamento de “velocidade” para registarmos uma descida no consumo, é isso?
Pedro de Almeida – Teremos, sobretudo, de reduzir os consumos. Uma das grandes componentes de solução será a eficiência energética. Isso pode fazer-se, por exemplo, através de automóveis e camiões que gastem menos do que os actuais. Mas essa maior eficiência tem de ser alargada a tudo, barcos, aviões, industria, habitações, etc.. Na maioria dos transportes, uma das formas de ganhar eficiência é simplesmente andar mais devagar. Nos barcos e nos aviões, por exemplo, cada dez por cento a menos de velocidade permitem poupar entre 20 a 40 por cento do combustível gasto. Esta é uma coisa que se pode fazer até com os sistemas actuais, e que aliás já está a ser praticada. Para poupar combustível, actualmente, os aviões de transporte já voam mais devagar do que voavam há 10 anos…

