A crise mundial e as oportunidades para o Brasil
25 Junho, 2009 / Carlos Fernando Vilanova
O cenário global vem impondo mudanças nas políticas econômicas dos países. Este é, atualmente, um dos grandes desafios que se apresenta para a economia mundial e brasileira. Para além da superação dos problemas relativos à carência de crédito observada no mercado, projetam-se outras definições importantes.
Muito do que vai ocorrer com a economia do País, em 2009, vai depender fundamentalmente das escolhas que forem feitas no presente, especialmente no que se refere ao conjunto das políticas monetária, fiscal e cambial.
No cenário internacional, há vertentes contraditórias. De um lado, afasta-se cada vez mais o risco de uma crise sistémica nas finanças mundiais, até então iminente, a partir do pânico instaurado nos mercados, pós 15 Set 09, com a quebra do banco de investimentos LEHMAN BROTHERS, o quarto maior dos ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA (EUA). Por outro lado, fica cada vez mais evidente o efeito contagioso da crise nas economias capitalistas.
Em 07 Abr 09, realizou-se, na Escola Superior de Guerra (ESG), no RIO DE JANEIRO/ RJ, conferência que abordou o tema “A CRISE MUNDIAL E AS OPORTUNIDADES PARA O BRASIL”. O evento foi patrocinado pela Companhia Brasileira de Multimídia (CBM), pela Gazeta Mercantil, pela Casa Brasil e pelo Jornal do Brasil (JB).
A principal finalidade dos painéis foi a de mostrar, inicialmente, a cronologia da chamada “Crise Sistémica Global”. Primeiramente, uma era “dourada” (2003 a 2007), incluindo os países do BIG3 (EUA, países da EUROPA e JAPÃO) e os BRIC (BRASIL, RÚSSIA, ÍNDIA e REPÚBLICA POPULAR DA CHINA), favorecidos pelo rápido crescimento do mercado de ações, especialmente americano.
Seguindo, em 2006 surgiram os primeiros sinais da chamada “bolha” no mercado imobiliário dos EUA para, em 2007, começar a crise “subprime” americana e, na sequência, a queda do LEHMAN BROTHERS (Set 08).
Como consequência, as transações interbancárias praticamente foram suspensas nos mercados financeiros relevantes, resultado da falta de credibilidade geral. As respostas da política económica dos EUA, até então julgadas pertinentes, foram de pouca eficiência e eficácia, do tipo “stop and go”, o que acelerou o “crash” no mercado de ações e provocou um arrocho global para concessão de crédito. Em decorrência, as empresas financeiras e não-financeiras foram afetadas de forma severa.
Em razão dos aspectos apresentados, tende a ocorrer limitações, em nível mundial, na política fiscal e econômica dos países, bem como declínio no consumo, em parte da pouca disponibilidade de crédito e da perda do poder aquisitivo das pessoas, e, ainda, deflação.
As crises económica e financeira nos EUA devem continuar se auto-alimentando, pois, segundo os conferencistas/especialistas, ainda não chegaram ao fim. A perda de confiança do Mercado nos “policymakers”, a despeito de ações agressivas de política económica, tende a manter crescentes as perdas financeiras.
Visualiza-se que uma grande recessão do BIG3, em 2009, pode vir a afetar as exportações de todos os países do G20. Os mercados financeiros tendem a ficar agitados, uma vez que o “canal financeiro de transmissão” sofreu uma “parada sistémica repentina” nos fluxos internacionais de capitais. Em consequência, espera-se um crescimento económico negativo nos principais países do G20.
O BRASIL, em 2009, tende a sofrer uma desaceleração do crescimento econômico, porém longe de uma recessão, embora os declínios acentuados nos preços de commodities - do petróleo até o açúcar e o café, por exemplo - tendem a afetar diretamente o País.
O balanço de pagamento brasileiro poderá apresentar urn déficit na conta corrente, mas sem problema de financiamento (os investimentos diretos devem financiar o déficit).
O Estado demonstra estar preparado para enfrentar a chamada “parada sistémica repentina” dos fluxos externos de capitais, em razão de possuir significativas reservas internacionais.
O BRASIL, na AMERICA LATINA, é um dos países que está com inflação controlada, resultado da política monetária, bem sucedida, desenvolvida pelo BANCO CENTRAL, baseada no modelo “meta de inflação”, o que permite manter a inflação, sob controle, em 2009.
Em contraste com os países do BIG3 e de alguns outros emergentes, o BRASIL projeta como tendência um abrandamento no que se refere à desaceleração no crescimento econômico global.
O País pode vir a atingir uma “aterragem suave”, em 2010, resultado dos eficientes fundamentos da política econômica doméstica (área monetária, creditícia e bancária), das reservas internacionais (elemento de protecão para absorver e neutralizar a crise), da situação positiva, de modo geral, das corporações brasileiras (poucas expostas a riscos cambiais e com bons balanços) e de um sistema bancário sólido, liderado principalmente por instituições nacionais locais.
A demanda doméstica, com estímulos ao crédito, que já está sendo implementada pelo Poder Executivo Federal, tende a compensar a desaceleração global, mantendo a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) na faixa de um ou dois por cento, em 2009.
A CHINA, caso tenha sucesso no seu intuito de diminuir a defasagem entre a economia rural e a urbana, tende a crescer de importância para o BRASIL, surgindo como oportunidade diante da atual crise mundial.
O declínio da participação dos países ricos no PIB mundial, acelerado pela crise econômica, tende a aumentar a participação dos países emergentes à mesa de negociação no concerto das Nações.
Finalmente podemos afirmar que a AMERICA LATINA, apontada como prioridade pela diplomacia brasileira, tende a exigir atenção especial nos próximos anos. Neste contexto, mostra-se importante para o BRASIL procurar reforçar e ratificar sua importância estratégica no Subcontinente, mesmo em um momento de crise, em todas as expressões do Poder Nacional, notadamente a Econômica e a Militar.
Carlos Fernando VilanovaO T. Coronel Carlos Fernando Vilanova tem o curso da Escola Superior de Guerra onde tomou contacto com a obra do General Meira Mattos. Aquando Chefe de Gabinete do Secretário de Política e Estratégia e Assuntos Internacionais, do Ministério da Defesa, desenvolveu uma apetência intelectual pelo estudo aprofundado da obra legada pelo mais Eminente Geopolítico Brasileiro e sua divulgação quer à actual geração de militares e Geopolíticos quer a uma dinâmica de estudo para a geração vindoura.

