A Estratégia Nuclear e a Estratégia Revolucionária

20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

Com a explosão das duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945, houve um tremendo impacto no campo da Estratégia militar. Surgia uma nova arma de poder destruidor e mortífero nunca antes imaginado e contra a qual não se vislumbrava nenhum recurso de defesa. A ameaça de guerra nuclear como que paralisou, por algum tempo, a mente dos estrategistas militares.

Inicialmente, o monopólio da bomba nuclear esteve com os Estados Unidos. Em 1949 a União Soviética explode sua primeira bomba atômica, pondo fim a este monopólio. Passa a haver uma resposta estratégica para a bomba atômica - a represália atômica. Começa a escalada atômica. Estados Unidos e União Soviética aumentam seu arsenal e repetem suas explosões em campos de prova afastados da Sibéria e em ilhas do Pacífico.

O crescimento dos arsenais apavora a humanidade, ante o perigo de uma hecatombe de dimensões mundiais. A antiga bomba atômica, de fissão nuclear, é substituída por outra muito mais poderosa, de fusão nuclear - a bomba de hidrogênio.

Ao mesmo tempo as superpotências-Estados Unidos e União Soviética -colocam sua tecnologia e indústria a serviço dos vetores de transporte das bombas: é a corrida dos mísseis que de continentais passam a intercontinentais e hoje exploram o espaço sideral alcançando outros planetas.

É neste quadro, de engenhos nucleares fabricados aos milhares, cada vez mais potentes e mortíferos, e de mísseis transportadores de raio de ação ilimitado e também cada vez de maior precisão, que surge a Estratégia de dissuasão do General francês Beaufre.

Segundo o General Beaufre, sintetizador brilhante de Estratégia da guerra total de nossa época, “a Estratégia é a arte da dialética das vontades empregando a força para resolver seus conflitos. É a vontade dos homens, a vontade dos povos, e ainda hoje é necessário que eles tenham vontade de combater e vencer”.

Sobre a guerra nuclear escreve Beaufre que a dissuasão nuclear é a Estratégia que visa a paralisar o inimigo pelo risco de ser destruído pela represália nuclear. É a situação que estamos vivendo atualmente. Os arsenais nucleares acumulados pelos Estados Unidos e União Soviética e os mísseis que possuem, criam o ambiente paralisante da autodestruição do atacante. Como o objetivo político da guerra é a vitória e não a autodestruição, aí se encon¬tra o efeito paralisante da Estratégia de dissuasão nuclear do General Beaufre.

Mas o General Beaufre, em sua Estratégia da guerra total, não se fixa apenas nos aspectos do conflito nuclear. Escreve ele:

“A dissuasão nuclear, paralisando o conflito bélico, deixa uma margem muito estreita de liberdade de ação estratégica: aquela que é explorada pela Estratégia soviética sobre a comunidade mundial. A ação política e econômica, a utilização de movimentos revolucionários e mesmo conflitos locais que procuram escapar à paralisia imposta pela dissuasão nuclear.”

Estamos hoje diante de um novo quadro da guerra, a chamada guerra das estrelas, cuja tecnologia e estratégia advêm dos progressos alcançados nos campos de emprego dos mísseis, dos satélites e, particularmente, do raio laser. Julgam os técnicos e estrategistas norte-americanos do “Strategic Defense Initiative” que é possível do território norte-americano através de um sistema laser, estações de terra e em satélites, capaz de desintegrar em órbita os mísseis atacantes e as cabeças nucleares.

Este é o assunto de maior atualidade e também o mais polêmico no quadro da mais moderna Estratégia militar.

A Estratégia militar contemporânea - de ação direta, de ação indireta em cujo contexto se inclui a guerra revolucionária e a dissuasão nuclear - pode ser aplicada a qualquer forma com que venha se apresentar a guerra moderna:

• a nuclear; e

• a revolucionária.

Os novos conflitos bélicos têm como tendência, se forem locais, desenvolverem-se num quadro misto de guerra convencional e ou paralelamente. Se forem gerais, envolvendo países comprometidos no confronto Leste-Oeste, Pacto de Varsóvia e OTAN, poderão combinar as três formas de guerra acima citadas, devendo o emprego da arma nuclear realizar-se ou no chamado ambiente tático-operacional, o que será mais provável, ou, em caso desesperador, de forma ilimitada, provocando a horrível hecatombe que todos procuram evitar.

A divergência entre a direção política e o comando militar dos conflitos bélicos surgiu de maneira evidente no decorrer da I Grande Guerra. Na Europa, até a Guerra Franco-Prussiana de 1870 o costume corrente era os reis e príncipes governantes assumirem simultaneamente o comando das operações militares. A publicação Cla usewitz e sua leitura malfeita permitiu que se afirmasse,.durante quase 100 anos, que o pensador prussiano preconizava que “uma vez declarada a guerra, a direção cabe aos soldados e marinheiros e os políticos passam para o segundo plano até a vitória (ou derrota)”. Várias gerações de chefes militares foram educadas sob a inspiração desta equivocada interpretação das idéias clausewitzianas. Justamente um dos pontos mais importantes do pensamento do escritor prussiano é a necessidade de submeter o objetivo militar ao objetivo político.

Diz o Marechal inglês Michael Carver, em seu livro crítico sobre os generais das guerras deste século, The War Lords, que a dimensão da guerra se alterou profundamente a partir do conflito de 1914-1918. O grande passo do desenvolvimento tecnológico abrangendo toda a vida e atividades do Estado - Nação. Deixou a guerra, a partir daí, definitivamente, de ser um fenômeno militar para transformar-se num problema político dos mais graves.

O Marechal Carver analisa, no livro citado, a incidência simultânea, por ocasião da Grande Guerra, de dois tipos de problemas: o despreparo dos chefes militares incapazes de se adaptarem às novas condições do conflito, muito mais amplo em sua abrangência, atropelados que foram pelo aparecimento de novas técnicas e novas armas que se impunham no campo de batalha, ao lado das antigas, antes mesmo que eles pudessem se familiarizar com suas peculiaridades de emprego; ao mesmo tempo, viam-se em dificuldades em aceitar a separação que, agora, se impunha nítida, entre a direção política da guerra e o comando militar.

Antes, na última experiência de guerra maior, em 1870, os prussianos e franceses foram comandados por seus governantes, Guilherme I e Napoleão III, respectivamente. Já na Grande Guerra, após um começo desastroso ao lado dos aliados ocidentais, resultante de discrepâncias sobre o limite de responsabilidades sobre a direção política da guerra, o Presidente Clemenceau e o Primeiro-Ministro Lloyd George assumiram plenamente esta direção, não sem que os comandantes-em-chefe, respectivamente. Generais Joffre e John French, demonstrassem suas reações. Esses desentendimentos que marcaram o primeiro ano da I Grande Guerra ficaram na crônica com as seguintes frases de controvérsia: do Presidente Clemenceau -”a guerra é coisa muito séria para ser dirigida pelo militares”; do General Joffre -”a política de guerra é coisa muito séria para ser dirigida pelos políticos”.

Não há dúvida que foi o aparecimento, no cenário militar, dos aviões de combate, veículos motorizados, rádio, telefone, submarinos, novos explosivos, guerra química e a exigência de enorme suporte de mobilização humana e industrial que provocou um novo desmoronamento do fenômeno bélico; isto se deu nitidamente no conflito de 1914-1918; em particular, as inovações técnicas no setor de comunicações -telefone, telégrafo e rádio -revolucionaram os conceitos então existentes, relativos à capacidade de comando no espaço e no tempo. Deixava a guerra, efetivamente, de ser um problema predominantemente militar.

O período de entre guerras, 1919-1939, assistiu aos progressos extraordinários da tecnologia das novas armas; algumas, apenas ensaiadas na Grande Guerra, assim também como os avanços na área das comunicações elétricas, eletrônicas e do radar.

Ao eclodir a II Guerra Mundial, do lado ocidental não havia mais dúvida de que o poder político deveria exercer a plenitude de suas responsabilidades, fixando os objetivos da guerra. Aos comandos militares caberia conduzir a Estratégia militar, em terra, mar e ar. Vemos a direção política da guerra exercida por estadistas, Churchill, Roosevelt e Stalin. Hitler pretendeu reunir em suas mãos o comando político e militar, gerando constantes conflitos internos que a História registra e a derrota embalsama.

Mas, foi também na II Guerra Mundial que se firmou o princípio de comando único do nível estratégico de forças combinadas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Por ocasião da Grande Guerra, somente no final, em 1918, os aliados ocidentais chegaram a um acordo para constituir o Comando Supremo das Forças Inter aliadas; a escolha recaiu sobre o General francês Ferdinand Foch. Esta necessidade-o Comando Único das Forças Armadas -sentida desde os primeiros dias da campanha, teve que vencer inúmeros preconceitos para ser implantada.

Já ao começarem as operações principais da II Guerra Mundial o princípio do Comando Único de Forças Internacionais estava consolidado. O General Dwight Eisenhower o exerceu com qrande proficiência e habilidade. Consolidava-se ao mesmo tempo a aceitação de dois princípios: do Supremo Comando Único inter aliado e dos Comandos Estratégicos Combinados (Exército, Marinha e Aeronáutica), integrados sob mesma direção militar, nos vários teatros de operação e áreas de defesa.

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