A Guerra - Conceituando

20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

“A guerra é um ato de violência destinado a forçar o inimigo a submeter-se à nossa vontade.”

Este pensamento do pensador militar prussiano exprime, de forma completa e clara, a guerra vivida e estudada por Clausewitz, contemporâneo que foi das chamadas Guerras da Revolução e das Campanhas Napoleônicas.

O conceito clausewitziano transformou-se no paradigma do pensamento do Ocidente sobre a guerra. Dominou o espírito dos autores alemães, franceses e russos durante este século e meio que nos separa, hoje, da primeira edição do Vom Kriege.

Mesmo se aceitando ipsis itteris a definição de Clausewitz, não podemos deixar de reconhecer que o ambiente e os meios que envolvem a guerra atual alteram a nitidez cristalina que caracterizava, na época, o pensamento do autor prussiano.

O “ato de violência” entendido por Clausewitz era de violência fisica, choque armado, duelo militar; no decorrer destes “50 anos a eficácia” progressiva da violência psicológica veio se acrescentando e é hoje reconhecido instrumento de guerra, através das modernas práticas de sofisticadas técnicas de submissão da vontade do inimigo. Sob este aspecto, o pensamento militar do Ocidente, encarnado pelo autor prussiano, já começa a aceitar os valores milenares da concepção da guerra chinesa, expressada por Sun Tzu (cerca de 500 anos antes de Cristo).

A obra clássica de Sun Tzu se apóia num trecho que revela a chave de sua filosofia. Diz o autor chinês:

“A guerra é uma preocupação muito séria para o Estado; ela necessita ser profundamente estudada.”

Pela primeira vez, o escritor oriental caracteriza a constância da guerra na vida dos Estados, afirmando:

“A luta armada não é uma anomalia efêmera, mas um ato consciente, que, por conseqüência, deve ser racionalmente analisado.”

Penetrando no tema que caracteriza a essência de sua teoria sobre a guerra, o predomínio da inteligência sobre a brutalidade, da habilidade sobre o choque, da subversão psicológica da mente do adversário sobre a batalha sangrenta, assim se manifesta o general e filósofo chinês:

“O general que for considerado mestre na arte da conquista deve saber frustrar os planos de seu inimigo, comprometendo suas alianças, criando desavenças entre o soberano e seus mi-nistros, entre os superiores e inferiores, entre os chefes e subordinados. Seus espiões e seus agentes devem estar em toda parte, colhendo informações, semeando discórdias e fomentando a subversão.

O inimigo deve ser isolado e desmoralizado; sua vontade de resistência, quebrada.

Assim, o inimigo cairá sem combate, seu exército será conquistado, suas cidades ocupadas e seu governo substituído. Somente quando não for possível derrotar o inimigo por esses meios é que se deve recorrer à força armada, e assim mesmo, da seguinte forma:

-por mais curto período;

-com o menor sacrifício de vidas humanas;

-infligindo ao inimigo as menores perdas materiais possíveis.

Arremata Sun Tzu: -”o bom estrategista aquele que é capaz de derrotar o inimigo sem atacá-lo, de ocupar as cidades inimigas sem destruir os seus bens, de ocupar seu território sem necessidade de choques sangrentos.”

Ainda conceituando a guerra, Clausewitz destaca tratar-se “de um instrumento da política nacional”.

O Prof. Rappoport, prefaciador da edição francesa do Vom Kriege, considera estas três caractedsticas: “instrumento”, “política” e “nacional”, a essência da visão cosmológica da guerra pelo autor. Partindo dessas três características, analisa a evolução do conceito clausewitziano até a nossa época. Raymond Aron se aprofunda no aspecto político e nacional da guerra, partindo do conceito do autor prussiano de que a guerra é uma forma de ação polftica, um instrumento da política; estabelece a clara hierarquia entre o objetivo político e a ação militar ou, sintetizando, entre o poder político e o poder militar.

O Prof. Rappoport estima estar hoje abalada a solidez da idéia clausewitziana de política e de nacional, na conceituação dos conflitos armados. Após a disseminação da teoria marxista, apregoando os valores do proletariado internacional, verifica que o sujeito da guerra -política nacional -começou a ser permeada por idéias internacionalistas de luta de classes.

Combinando-se os juízos críticos de Raymond Aron e Rappoport, ambos partindo da teoria de Clausewitz que dominou o pensamento militar ocidental durante estes 150 anos, sentimos que duas influências começam a ocupar espaço na visão da guerra moderna e na do futuro:

- A forma de violência e a internacionalização dos conflitos.

A descoberta por Rappoport de um novo pensamento neoclausewitziano, incorporando estas duas influências, não é aceita por Raymond Aron que, embora reconhecendo os traços de evolução apontados, observa, nos dias de hoje, a continuidade no essencial do pensamento clausewtziano, e que equivale a dizer, a predominância da violência, não importa a forma, e a predominância do interesse da política nacional.

Entre os conceitos deste autor prussiano, o que se tornou mais divulgado, graças talvez a Lenine, foi o de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Em seu opúsculo La fêe de la Internationale, Lenine, depois de procurar se apoiar em algumas idéias do escritor prussiano, diz a seu respeito: “Clausewitz é reconhecido como um dos maiores historiadores militares cujas idéias foram fecundadas por Hegel”

Mas, o pensamento de Lenine que colocou Clausewitz na berlinda da polêmica internacional constante foi a contrafação da frase do prussiano, acima citada, sobre a relação política e guerra. Para Lenine “a guerra é continuação da política por outros meios”. Fazendo da guerra o estado permanente e a política o instrumento transitório, o pensador e líder soviético inverteu o sentido substantivo da concepção do escritor prussiano.

Mas, antes de tratarmos da Estratégia sob os parâmetros dos estrategistas militares, vejamos alguns conceitos sobre a mesma, manifestados por filósofos.

Raymond Aron encontra três componentes principais na teoria estratégica : conhecimentos apoiados na ciência natural, idéia conceptual, obediência a princípios válidos na maioria dos casos. Traduzindo para a linguagem militar diríamos: conhecimento geográfico da área de operações e dos meios, conceito de objetivo e aplicação dos princípios gerais de guerra (informação, segurança, unidade de comando, articulação dos meios etc.) …

Para André Glucksmann o conceito de guerra impõe um cálculo estratégico. Vemos, assim, a estratégia-cálculo de como fazer a guerra. No fundo, recaímos, como veremos mais adiante, na mesma coisa essencial, embora seja diferente a linguagem do filósofo e do estrategista militar.

Em síntese encontramo-nos diante de duas filosofias nítidas sobre a guerra:

- A da submissão pelo uso da força bruta (polarizada nas idéias de Clausewitz), e

- A da submissão pelo controle das mentes (apresentada por Sun Tzu).

Em ambas, busca-se o mesmo fim - a derrota militar - em conseqüência, o domínio político.

No cenário bélico que se apresenta na atualidade e se vislumbra para o futuro, percebe-se, permeadas nas concepções estratégicas modernas, estas duas concepções filosóficas da guerra.

Últimos Artigos

Insira um Artigo

CEPEN.org