A Guerra - Uma cosmovisão filosófica

18 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

“Quem prega a guerra é um apóstolo do demônio.” (John Ray, Provérbios Ingleses. )

“Resultou disso que todos os profetas armados venceram e os desarmados pereceram.” (Maquiavel, / Príncipe, Cap. 6.)

Vários filósofos, desde a Antiguidade clássica, vêm se preocupando com o fenômeno bélico, manifestação de violência coletiva conduzida e coordenada por um Iider ou por um grupo dirigente.

Não querendo recuar a tempos muito distantes, vamos encontrar no século XVII o filósofo inglês John Locke, considerado um dos fundadores do liberalismo políico, dedicar um capítulo de sua obra clássica Ensaio sobre o Entendimento Humano ao tema “Do Estado de Guerra”.

Vale a pena reproduzirmos o pensamento de John Locke:

“O estado de guerra é um estado de inimizade e destruição; e, portanto, um estado que declara um desígnio inalterável e calmo com relação à vida de outrem, por meio de palavra ou ação, não apaixonado ou precipitado e o coloca em estado de guerra contra aquele a quem declarou semelhante intenção, expondo de tal maneira a vida ao poder de outrem, a qual lhe poderá ser arrebatada por aquele ou por qualquer outro que a ele venha juntar-se para defendê-lo, esposando-lhe a causa; sendo razoável e justo possa eu ter o direito de destruir aquilo que me ameaça de destruição, pois, pela lei fundamental da natureza, devendo-se preservar o homem tanto quanto possível quando nem tudo se pode preservar, dever-se-á preferir a segurança do inocente; e pode destruir-se um homem que nos vem fazer a guerra ou descobriu inimizade à nossa existência, pela mesma razão que se pode matar um lobo ou um leão, porque tais homens não estão subordinados à lei comum da razão, não tendo outra regra que não a da força e da violência, podendo assim ser tratados como animais ferozes, criaturas perigosas e nocivas que com certeza nos destruirão sempre que lhes cairmos nas mãos.”

Locke, com o prestígio de seu pensamento filosófico, e dentro de seu enfoque metodológico sobre a vida da sociedade, reconhece o direito de leg(tima defesa, ao homem e às nações, na preservação de sua liberdade. Esta liberdade, como bem supremo, surge forte no pensamento lockiano; é a sua marca liberal.

Na floração dos filósofos europeus dos séculos XVI II e XIX, entre outros, Schopenhauer, Hegel e Nietzsche dedicaram-se à interpretação desse ato de violência coletiva. Entre os mais modernos destacamos: Raymond Aron, Anatole Rappoport e André Glucksmann, este último, filósofo da moda da França nos anos 80.

Karl Clausewitz, militar e escritor, não pode ser considerado um filósofo, em termos acadêmicos, mas filosofou sobre a guerra com grande proficiência e autoridade. Sua obra principal Vom Kriege (Da Guerra) mereceu estudo de numerosos pensadores e filósofos de renome como Lenine, Raymond Aron, Rappoport e agora Glucksmann.

Prefaciando a edição francesa de Vom Kriege, o Prof. Rappoport afirma que Clausewitz pode ser considerado o filósofo da guerra, assim como Francis Bacon (Novum Organum), o filósofo da ciência, Maquiavel (II Príncipe) o filósofo da política, Hobbes (Leviathan) o filósofo da sociedade, Hume (lnquérito à Compreensão Humana) o filósofo do conhecimento, Adam Smith (A Riqueza das Nações) o filósofo da economia, Marx (O Capital) o filósofo. da sociedade sem classes.

Vom Kriege faz profunda investigação sobre a fenomenologia da guerra, sua origem, natureza e implicações no contexto histórico e sociológico. Clausewitz faz filosofia quando procura compreender a essência do fenômeno bélico e suas derivações no processo existencial da humanidade. Por isto, sua obra, editada em 1832, após sua morte, despertou e desperta enorme interesse e continua a ser objeto de interpretações dos filósofos.

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