Estratégia Militar - Fundamentos
20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen
“A Estratégia militar é a arte do emprego da batalha para alcançar os objetivos da guerra.” (Clausewitz, Vom Kriege. )
“A Estratégia militar é a arte de distinguir e aplicar os meios militares para atingir o objetivo da guerra.” (Liddell Hart, Strategy. )
Fundamentos
Vimos, anteriormente, que a origem da Estratégia foi militar, a arte dos generais, como a chamavam os gregos.
A expansão do cenário bélico, em virtude dos avanços da tecnologia, e o progressivo alcance de novas armas resultaram na generalização semântica da palavra Estratégia, levada para o âmbito da Poltica para significar seleção e emprego de meios em busca de objetivos. Liddell Hart, um dos acatados pensadores militares, distingue hoje a grande Estratégia e a Estratégia militar ou Estratégia pura. A primeira é a Estratégia geral, política ou nacional; e a segunda, a milenar arte dos generais.
É importante compatibilizar o objetivo militar ao objetivo poIítico ou, se quisermos, ao objetivo da guerra. Embora diferentes, eles não podem ser separados, porque as Nações não se empenham em guerra por amor à guerra e sim para a consecução de uma políica. O objetivo militar é apenas o meio de atingir um fim político.
A compreensão dessa dependência do objetivo militar ao objetivo político não foi alcançada facilmente. Durante todo o século XIX e até o meio da Grande Guerra (1914-1918) o cânone básico da doutrina militar foi que “a destruição das forças principais do inimigo no campo de batalha” constitua o único e verdadeiro objetivo da guerra. Isso foi aceito em todo o Ocidente e impresso em todos os manuais militares. Segundo Liddell Hart, a influência dos livros de Clausewitz muito contribuiu para fortalecer esse conceito. Mas os discípulos de Clausewitz levaram a sua teoria a extremos não desejados pelo Mestre. Enquanto se ressaltam os aspectos acima citados, esquece-se da contribuição clausewitzianaoao dar ênfase aos fatores psicológicos na guerra. Clausewitz foi dos primeiros a rebelar-se contra a “escola geométrica da Estratégia”, mostrando que o espírito humano é infinitamente mais importante que as linhas e ângulos operacionais. Destacou e discutiu os perigos do desânimo e da fadiga, o valor da ousadia e da vontade.
No seu alentado estudo Vom Kriege, obra-prima pesquisada incessantemente no Ocidente e na União Soviética, Clausewitz distingue cinco elementos de natureza diferente na Estratégia: - - elementos morais;
- físicos;
- matemáticos;
- geográficos e
- estatísticos.
É fácil se compreender que estes elementos variam em função do caráter nacional, de sua capacidade tecnológica, industrial e em recursos naturais, da forma, extensão e posição geográfica de seu território, do efetivo, organização, capacidade de mobilização e logística de suas Forças Armadas, e, finalmente, das qualidades de seus chefes e combatentes.
Os cinco elementos da Estratégia citados pelo pensador militar alemão são assim interpretados:
• o elemento moral manifesta-se na vontade dos chefes, qualidades das tropas e no apoio nacional à causa e objetivo da guerra;
• o elemento físico relaciona-se com a quantidade, composição, equipamento e importância relativa das forças;
• o elemento matemático diz respeito à forma geométrica das operações, função da forma geográfica e posição do objetivo ou objetivos que resulta em certa importância no tocante à facilidade ou dificuldade em concentrar ou dispersar meios;
• o elemento geográfico é relativo ao teatro de operações terrestre ou marítimo, terreno, sua extensão, forma, natureza, pontos dominantes, regiões-chave;
• o elemento estatístico refere-se à capacidade de mobilização de efetivos, mobilização industrial, provimento logístico das operações.
Insiste Liddell Hart que a boa Estratégia militar deve sempre ser capaz de adaptar os fins aos meios. Realmente, esta compatibilidade é essencial para que o planejador possa ter uma expectativa de êxito. Fatores imponderáveis influem na Estratégia; alguns de dificílima avaliação, como a inteligência, a vontade dos chefes e combatentes, a ocorrência de intempéries imprevisíveis.
Buscando melhor conceituar a Estratégia militar, observa o General Beaufre que:
“A Estratégia não é a Técnica, nem a Tática, menos ainda a Logística e nem mesmo a Política, mas o nível intermediário entre a grande Política e a Tática; a engrenagem que permite ordenar o emprego da força, a fim de atingir, da melhor forma, os fins fixados pela grande Política.”
Em seguida, vamos apreciar os chamados princípios de guerra ou princípios estratégicos, herdados de experiências milenares, revistos e reformulados depois de cada grande conflito bélico, e cuja permanência e validez resistem até os nossos dias.

