Estratégia Militar - Princípios de Guerra ou Princípios Estratégicos - Ação Indireta

20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

Para o General Beaufre (lntroduction a la Stràtegic), a Estratégia de ação indireta representa hoje uma diversão bélica que substitui a guerra total, tornada impraticável desde o aparecimento da arma nuclear. Diz o mesmo autor que “a Estratégia de ação indireta é o complemento e, de certa forma, o antídoto da Estratégia nuclear”.

O Coronel Guy Doly (Strategic France Europe) procura fazer uma distinção entre a Estratégia de ação indireta e a chamada Estratégia de aproximação indireta, tantas vezes referida por Liddell Hart. A primeira, de ação indireta, seria a antiqüíssima estratégia do escritor militar chinês Sun Tzu, de busca da vitória puramente pela surpresa, pelas manobras diversionárias, visando a desagregação psicológica, evitando o choque, ou a batalha com as forças principais do inimigo. A segunda, de aproximação indireta, utiliza-se preponderantemente da manobra, da surpresa, da diversão, mas não exclui a idéia subjacente da busca da decisão pela batalha.

Esses pensamentos de clássicos da Estratégia militar nos levam a considerar que, em termos de objetivo militar, a principal diferença entre os conceitos de Estratégia de ação direta de Clausewitz e de ação ou de aproximação indireta consiste em que a primeira busca a destruição e a segunda a submissão das forças inimigas. Na Estratégia de destruição predomina a batalha, na de submissão predomina a manobra.

Estendendo-nos um pouco mais sobre a concepção da Estratégia de ação indireta, que teve como primeiro teórico o chinês Sun Tzu e como seguidores contemporâneos Mao Tsé-Tung e Giap, veremos que esta também se difere da teoria de aproximação indireta de Liddell Hart, particularmente pelas razões seguintes:

• Sun Tzu confia mais na desagregação moral do inimigo do que na sua desarticulação tática e estratégica por força de ações de surpresa, manobras diversionárias, envolvimento de flancos e retaguarda. Em conseqüência, a estratégia do escritor militar chinês não leva em conta o fator tempo; sua manobra é prolongada, à espera dos efeitos de desagregação psicológica e moral do adversário.

• Liddell Hart não abandona completamente a idéia de Clausewitz de concluir a ação estratégica através de uma batalha. O que pretende, no fundo de sua concepção, é travar a batalha contra um inimigo enfraquecido.

Inicialmente, vamos apresentar as idéias do pai da Estratégia da ação indireta, o escritor militar chinês Sun Tzu, que viveu no século V antes de Cristo. Depois, voltaremos aos conceitos de Liddell Hart que absorveu a essência das idéias do estrategista chinês e adaptou-a ao pensamento militar moderno.

Os fundamentos da Estratégia de ação indireta são encontrados no tratamento “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, cuja primeira tradução conhecida no Ocidente data de 1772, feita pelo padre jesuíta francês Amiot, missionário em Pequim. A tradução da obra para o francês pelo Padre Amiot despertou grande interesse na Europa. Até o fim do século XVIII apareceram quatro traduções para o idioma russo e uma para o alemão. Em 1910 surgiu a tradução para o inglês de Leonel Giles. Há informações de que Napoleão Bonaparte, na sua juventude de tenente ou capitão, tenha lido a obra de Sun Tzu.

O livro de Sun Tzu é uma obra de meditação e de conceitos muito do estilo chinês. Começa o autor fazendo considerações sobre a guerra como assunto de importância vital para o Estado. Como tal, a guerra deve ser objeto de profunda análise e planejamento pelos dirigentes do Estado.

Inaugurou, assim, Sun Tzu, há cerca de 2500 anos, a grande polêmica dos nossos dias - a guerra é da responsabilidade maior dos estadistas ou dos generais?

Nos seus escritos o autor chinês preocupa-se menos com técnicas e táticas operacionais para se concentrar num sistema normativo estabelecendo regras gerais capazes de conduzir as guerras à vitória final. Ele considera o bom estrategista aquele que é capaz de derrotar o exército inimigo sem atacá-lo, de ocupar cidades inimigas sem destruir os seus bens, de ocupar seu território sem necessidade de choques sangrentos.

Sun Tzu defende a tese que a batalha deve ser vencida muito mais pela manobra do que pelo choque armado. Como vemos, este conceito é antípoda do clássico princípio de Clausewitz, que tanta influência teve no pensamento estratégico militar do Ocidente nos últimos 200 anos.

O autor chinês afirma que a superioridade em efetivos somente não garante a vitória militar. Ressalta como fatores importantes: inteligência dos chefes, moral da tropa e as circunstâncias. Procura realçar que o general não deve confiar demasiado na superioridade física do poder militar. Sun Tzu não concebe a guerra em termos de carnificina e destruição; prefere a vitória preservando tudo intacto, o mais intacto possível, as forças inimigas e os bens do seu território. Este, diz, o verdadeiro objetivo da Estratégia.

Sun Tzu é o pioneiro da crença na importância da informação estratégica e no planejamento nela concebido. Afirma que o planejamento baseado no conhecimento profundo do inimigo contribui decisivamente para acelerar a decisão militar. Leva em alta consideração os efeitos da guerra sobre a economia da Nação inimiga e faz sábias considerações sobre os efeitos morais danosos a que é submetida a Nação levada a um conflito bélico prolongado. Essa deteriorização moral favorece aquele que tem condições de resistir por mais tempo.

Referindo-se às qualidades de um bom general, o escritor chinês enumera : inteireza moral, controle emocional e competência profissional, além de capacidade de organização, agilidade manobreira, controle dos subordinados, conhecimento do terreno e aptidão para avaliar as circunstâncias provocadas pelos fenômenos natura is.

Para Sun Tzu o Exército é o instrumento destinado a desferir o “coup de Grace” ao inimigo previamente enfraquecido. Antes das hostilidades militares devem agir os agentes secretos destinados a aprofundar os divisionismos ou rivalidades que sempre semeiam as forças inimigas e a realizar vários tipos de atividades clandestinas. Entre as missões desses agentes infiltrados o general chinês arrola: boatos falsos, informações desorientadoras, campanha de desmoralização contra chefes e oficiais inimigos acusando-os de corrupção; enfim, todas as artimanhas destinadas a exacerbar a discórdia e a desconfiança nas fileiras inimigas e desmoralizar suas forças perante sua população.

A obra-prima da literatura militar, A Arte da Guerra, exerceu no curso de 25 séculos, profunda e enorme influência no pensa¬mento militar da China e do Japão. Contemporaneamente, através do seu maior discípulo e divulgador, Mao Tsé-Tung, as idéias de Sun Tzu vêm se tornando cada vez mais conhecidas no Ocidente. Como vimos, os russos, pela via de suas províncias mongólicas e tártaras, vinham recebendo há vários séculos a influência do pensamento estratégico chinês; após a Revolução Bolchevista e a aproximação ideológica da União Soviética e da China, as idéias de Sun Tzu, misturadas com o tempero marxista - Ieninista de Mao Tsé¬Tung, passaram a ter grande influência no processo da revolução mundial comunista. Para fins de aplicação na subversão comunista, que deve preceder à conquista do poder, os soviéticos prepararam um manual de práticas revolucionárias que hoje domina a Estratégia de subversão, na África ou na América Central, conhecida como “a linha de lenan”.

Após este resumido histórico sobre o estrategista maior da ação indireta vamos reproduzir aqui algumas de suas concepções mais conhecidas mas nem sempre corretamente citadas .

• “Somente quando todos os recursos de pressão moral e psicológica estiverem esgotados, e o inimigo ainda possa apresentar resistência militar, deve ser usado o recurso de buscar a decisão pelas armas. Neste caso deve ser procurada a decisão

• no mais curto prazo;

• com o menor custo de vidas e de material;

• infligindo ao inimigo o menor número de perdas.”

• “Geralmente, na guerra, a melhor política é conquistar o país inimigo intacto; destruí -Io é pior. Capturar o Exército inimigo é melhor do que destruí – Io. Obter uma centena de vitórias através de uma centena de batalhas não representa a melhor estratégia; vencer o inimigo sem a necessidade de combater significa a melhor estratégia.”

• “A administração de grandes efetivos e materiais pode se tornar tão fácil como a administração de pequenos efetivos e materiais; é uma questão de organização.”

• “Geralmente, quem escolhe o campo da batalha leva vantagens; quem chega depois ao campo de batalha e entra em combate leva desvantagens. Por isto, os generais atilados conduzem o inimigo ao campo de batalha que escolheram e rejeitam os escolhidos pelo inimigo. Não será oferecendo algumas vantagens ao inimigo que o faremos atuar de acordo com a nossa vontade, mas sim fustigando - o incessantemente.”

• “Há estradas que não devem ser utilizadas, tropas que não devem ser atacadas, cidades que não devem ser assaltadas e regiões que não devem ser disputadas.”

• “Não há nada mais difícil do que a arte da manobra. O mais difícil na manobra é fazer da direção enganosa a mais direta e transformar esta desvantagem em vantagem. Assim, marche por uma direção indireta, iludindo-o com estratagemas em outras direções. É preciso saber fazer o jogo da aproximação direta e da indireta.”

• “Quando transpuser um rio deve imediatamente ocupar posições a distância do mesmo.”

• “O terreno deve ser classificado de acordo com a sua natureza e seu aproveitamento operacional como acessível, favorável a infiltrações, neutro, fechado, acidentado e distante.”

• “Quando a tropa debanda, insubordina-se, fracassa, entra em colapso, em desordem ou foge, a culpa é do general. Nenhum desses desastres podem ser atribuídos a causas naturais. Quando as tropas são valorosas e os oficiais fracos, o resultado é a insubordinação: quando os oficiais são valentes e as tropas fracas o resultado é o fracasso.”

Basil Henry Liddell Hart serviu ao Exército britânico durante a I Grande Guerra e passou para reserva em 1927. Notabilizou-se como escritor militar no período de 1919 a 1939, chamado período de entre guerras, analisando a Estratégia militar empregada pelos dois adversários em face do advento de novos instrumentos de guerra, como o carro de combate, o avião e o submarino. Foi correspondente militar dos jornais ingleses London Daily Telegraph e London Times tendo acompanhado os conflitos militares locais na Abissínia e a Guerra da Espanha. Difundiu nas Forças Armadas inglesas seus estudos sobre a evolução da Tática e da Estratégia. Foi um entusiasta da mecanização e do poder aéreo. Entre as inúmeras obras que publicou destacam-se O Futuro da Infantaria (1933), A Defesa Dinâmica (1940), A Estratégia de Aproximação Indireta (1941 ), A Defesa do Ocidente (1950) e O Exército Soviético (1955). De Liddell Hart disse o General Patton: “Seus livros alimentaram-me durante 20 anos.”

Há sempre um sentido psicológico mais profundo nas razões que levam um autor a orientar-se para determinado tema. No caso de Clausewitz foi a observação das vitórias militares sucessivas de Napoleão durante um quarto de século. No caso de Liddell Hart foi o seu inconformismo diante da carnificina militarmente inútil de quatro anos em que se transformou a Grande Guerra, na frente ocidentaI.

Analisando os recursos táticos, os instrumentos de guerra colocados pela tecnologia nas mãos dos chefes militares do conflito bélico de 1914-1918, Liddell Hart chegou à conclusão de que eles não souberam tirar todo o proveito das novas armas - o carro blindado, o avião, o submarino - que, embora em fase experimental, poderiam ter influído mais particularmente no campo de batalha terrestre, para a imposição de uma tática de movimento, de manobra, que rompesse o impasse estratégico.

Insiste Liddell Hart, nas suas análises, particularmente na inépcia de uma guerra estática e de uma frente estabilizada durante quatro anos, resultando no massacre de milhões de homens sem nenhuma perspectiva estratégica de vitória a não ser pelo esgotamento.

Liddell Hart, acompanhando a evolução da técnica que se operou no período de entre guerras, de 1919 a 1939, quando os novos engenhos -os carros blindados, o transporte motorizado, os aviões, os submarinos, as telecomunicações e os sistemas de direção de tiro terrestres, navais e aéreos -alcançaram enorme progresso técnico, passou a admitir uma profunda alteração nas concepções estratégicas filiadas à escola clausewitziana.

Os planos de operações estratégicas, concebidos por Liddell Hart, justificam sua concepção estratégica de aproximação indireta, que não deve ser confundida com a Estratégia de ação indireta, de Sun Tzu e seus seguidores. fundada, essencialmente, na técnica de agressão psicológica.

Para o pensador e estrategista inglês “o objetivo da Estratégia é conduzir a batalha nas condições mais vantajosas e estas condições mais vantajosas serão as que diminuem a necessidade de combater”. “A Estratégia perfeita será aquela que obtenha a decisão pelo desequilíbrio das forças inimigas, que alcance sua rendição sem combate.” Quando se reporta à Estratégia perfeita sabemos que Liddell Hart refere-se ao ideal; o real que ele visualiza é a decisão militar alcançada com um mínimo de combate e um máximo de manobra. Considera que os recursos técnicos modernos permitem imprimir às operações um sentido de movimento que fará destacar no chefe militar a sua capacidade manobreira. Os modelos de chefe militar da II Guerra Mundial, por sua capacidade manobreira, são Guderian e Patton.

Após a II Guerra Mundial, Liddell Hart reviu sua concepção e se firmou com enorme convicção na de¬fesa dos princípios da Estratégia de aproximação indireta. O aparecimento da arma nuclear dotada de um poder destrutivo inimaginável tornou inconcebível a Estratégia de ação direta no quadro de uma guerra total. Será a hecatombe final.

A Estratégia de aproximação indireta, no quadro da atualidade bélica, permite a alimentação dos conflitos armados pelo enfraquecimento progressivo do inimigo, por meio de ações de surpresa, manobras diversionárias, bloqueios marítimos, movimentos envolventes pelos flancos e pela retaguarda, num contexto de permanente movimento. O objetivo principal, segundo Liddell Hart, é o desequilíbrio do sistema de forças, em conseqüência, o enfraquecimento do moral do inimigo. Por outro lado, esta concepção estratégica torna a guerra mais econômica em termos de recursos materiais e humanos.

A diferença fundamental entre a Estratégia de aproximação indireta de Liddell Hart e a de ação indireta de Sun Tzu é, como já referimos, que o autor inglês guarda na sua concepção a idéia da batalha, do golpe fundo sobre o inimigo já enfraquecido pela manobra.

Passemos a palavra ao próprio escritor militar inglês para que ele interprete o seu pensamento:

“A aproximação indireta deve permitir, seja conquistar o objetivo logo em seguida ao desequil(brio do sistema de forças do inimigo, seja por ter ficado ele enfraquecido por esse desequil(brio, seja por se terem criado as condições para se lhe aplicar o golpe decisivo.”

Considera Liddell Hart que o desequilíbrio do sistema de forças do inimigo produz tamanho impacto moral sobre seus comandos e suas forças que sua capacidade combativa se torna ineficaz.

Ainda no quadro da ação indireta está a Guerra Revolucionária, que trataremos em capítulo especial.

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