Estratégia Militar - Princípios de Guerra ou Princípios Estratégicos - Estratégia de Ação Direta
20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen
O principal mérito de Carl von Clausewitz, nos 40 anos em que serviu a vários exércitos em várias guerras, de 1792 a 1831, foi o de participar e de meditar sobre as duas guerras que marcaram o “turning point” da Estratégia militar - as guerras da Revolução Francesa que finalizaram com o surgimento do Império napoleônico e as guerras do Império.
Iniciando sua carreira no Exército prussiano, no Regimento do Príncipe Ferdinando, aos 12 anos, no posto de suboficial (gefreiter corporal), não conheceu, até morrer como general em 1831, outra profissão senão a militar. Em 1801, admitido na Escola Geral de Guerra, foi aluno, comandado e devotado admirador de Gerhard Johann Scharnhorst, o famoso reformador, chefe do Estado Maior e organizador do Exército prussiano. Em 1811 Clausewitz pôs seus serviços à disposição do Império russo em luta contra a desastrada invasão napoleônica. Antes havia servido ao Exército austríaco.
Quando na Escola Geral de Guerra, sob a orientação do General Schnarnhorst, Clausewitz familiarizou-se com as principais obras sobre Estratégia militar de sua época; estudavam-se, então, em particular, as teorias e as campanhas militares de Frederico II da Prússia e as chamadas Guerras da Revolução, as que precederam e que sucederam a queda da monarquia francesa até a campanha napoleônica na Itália.
Durante sua estada na Rússia, servindo no Exército do Tzar Alexandre, participou da luta contra a invasão das tropas napoleônicas (1811•1812). Regressando da Rússia, Clausewitz voltou ao Exército prussiano servindo sob as ordens do General Blucher, quando participou das campanhas de 1813, 1814 e 1815. Com o Exército de Blucher participou da Batalha de Waterloo, quando Napoleão foi derrotado pelos Exércitos ingleses e prussianos.
Após Waterloo começou para Clausewitz a época da meditação. Colocou sua espada na bainha. Em 1818 foi nomeado Diretor da Escola Geral de Guerra. No ano seguinte é promovido a general. Permaneceu na direção dessa Escola até sua morte, em 1831. Durante esse período de estudo e meditação, escreveu sua obra principal Vom Kriege (Da Guerra), que havia de imortalizá - lo como pensador militar.
Vom Kriege , lançado em 1832, um anos após sua morte, por sua viúva Marie von Clausewitz, é hoje um dos principais clássicos da Estratégia militar.
Contemporaneamente, o maior analista de Clausewitz foi o recém falecido sociólogo francês Raymond Aron. Compara Aron a projeção de Vom Kriege com a Guerra do Peloponeso, escrita por Tucidides.
Dois temas principais tornaram Vom Kriege famoso. O tema político filosófico que oferece uma nova interpretação do fenômeno da guerra. Há autores que tentam encontrar em Maquiavel a origem do pensamento político de Clausewitz sobre a guerra. Lembram esses autores que Maquiavel no O Príncipe, 300 anos antes, havia escrito invocando as mesmas críticas à guerra de então que compuseram o pensamento político-militar do autor de Da Guerra; Maquiavel criticava os exércitos mercenários, a mediocridade dos conhecimentos dos generais sobre o emprego de suas forças na batalha e a falta de espírito combatente das tropas. O tema militar, dando ênfase à tese da destruição da força armada inimiga, nós o desenvolvemos, quando tratamos da estratégia de ação direta.
Todas estas críticas, antecipadas pela genialidade do autor de O Príncipe, tornaram-se evidentes quando da criação de exércitos nacionais, resultado do conceito de “povo em armas”, oriundo da Revolução Francesa, mostrando à sociedade a obsolescência dos exércitos mercenários, cujos alto custo e interesse pecuniário eram responsáveis pelo seu pequeno efetivo, seu mau emprego e o pouco entusiasmo dos combatentes. Mas, Maquiavel criticava os exércitos mercenários, porém não tinha a visão dos exércitos nacionais, do povo em armas, que foi a substância do pensamento de Clausewitz.
Em suma, o que Clausewitz captou com precisão na sua obra, foi que o conceito de povo em armas deu nova alma aos exércitos, tornou seu recrutamento fácil e, em conseqüência, seus efetivos maiores; os combatentes lutavam pela Pátria e não mais pelo rei e por um salário de mercenário. Esta nova força, o exército nacional, foi o instrumento que Napoleão Bonaparte soube manejar de maneira invencível, por um quarto de século. Alterou o conceito político, moral e operacional da guerra. Clausewitz recolheu estas lições e as traduziu na obra Vom Kriege.
A síntese do pensamento político de Clausewitz sobre a guerra pode ser resumido na sua célebre frase -”A guerra é a continuação da política por outros meios”.
Nesta frase o autor de Vom Kriege conceitua a permanência da Política e a transitoriedade da guerra, um meio utilizado pela Política, “um ato de violência para obrigar nosso oponente a submeter - se à nossa vontade”.
Estudando Clausewitz, o líder revolucionário soviético Lenine resolveu se utilizar da frase do escritor prussiano e dar-lhe uma nova versão revolucionária, dizendo: “A Política é a continuação da guerra por outros meios.” Nessa inversão, Lenine retira da doutrina marxista o conceito filosófico-sociológico da revolução permanente, da luta permanente e, por aproximação, da guerra permanente.
Mas, passemos aos ensinamentos de Clausewitz no campo da Estratégia militar. Procurou extrair das campanhas napoleónicas os princípios e a conduta estratégica.
Alguns trechos de Vom Kriege, uma obra profunda, rica em descobrimentos interpretativos, sintetizam os grandes traços da Estratégia militar do seu autor.
Diz Clausewitz:
“A destruição da força militar do inimigo, é o principal princípio de guerra e o caminho direto para atingir o objetivo da guerra.
Esta destruição da força militar do inimigo deve ser executada, essencialmente, por meio da batalha.
Somente grandes batalhas podem traduzir grandes resultados.
Os resultados serão mais efetivos quando a decisão puder ser obtida através de uma única e grande batalha.
Somente uma grande batalha comandada diretamente pelo genera l – em -chefe inspirará maior confiança no chefe e nos seus subordinados.”
Extrai-se desses conceitos que o princípio fundamental da Estratégia militar de Clausewitz é a destruição da força militar do inimigo. A conduta estratégica ideal é a busca do centro de gravidade de suas forças e, numa só e única batalha decisiva, destruí-Ias.
Diz o autor que o princípio de destruição pode ser procurado por outros meios, havendo, em circunstâncias favoráveis, interesse em destruir forças secundárias do inimigo quando causem efeitos desproporcionalmente grandes para o êxito das operações, particularmente quando se trata de travar uma batalha pela conquista de objetivos geográficos em posições-chave.
Destaca o autor prussiano a importância da manobra, da capacidade de concentração rápida, das fintas de diversão sobre o inimigo para obter a surpresa e aplicar, com a maioria das forças, o golpe decisivo sobre o centro da gravidade do dispositivo inimigo.
Em sua obra diz o escritor militar-prussiano:
“A destruição das forças militares do inimigo é, na realidade, o objetivo de todos os combates; mas outros objetivos devem ser considerados, e estes objetivos podem, algumas vezes, ser predominantes; devemos, deveras, levar em conta uma distinção entre aqueles objetivos em que a destruição das forças militares do inimigo é principal, daqueles em que esta é uma aspiração futura. A destruição da” força inimiga, a conquista de uma posição ou a conquista de alguns objetivos pode ser o motivo principal para a batalha e, em alguns casos, pode-se considerar apenas a conquista de um desses objetivos ou de vários Juntos a principal razão para a batalha”
Na conceituação acima, Clàusewitz procura não perder de vista que, mesmo havendo necessidade de travar batalhas para a conquista de objetivos secundários, a mente do comandante-em-chefe não deve se afastar da meta de atacar o objetivo principal, o centro de gravidade do dispositivo inimigo, visando à destruição de suas forças.
Antes da sua obra clássica, Vom Kriege, Clausewitz, aos 24 anos de idade, escreveu um livro de reconhecido valor profissional, A Estratégia de 1804, testemunha de seu espírito maduro e já sólidos conhecimentos da arte militar. Interessante observar-se que, nesta obra, antecipa a discussão que haveria de inspirar toda sua produção intelectual posterior - a da relação entre a Política e a guerra_ Sem dúvida, dois estamentos do pensamento de Clausewitz trouxeram sua presença viva, estuante, ao pensamento político e estratégico da atualidade: sua concepção de batalha decisiva pela ação direta buscando a destruição das forças militares do inimigo e o seu conceito de que “a guerra é a Política conduzida por meios violentos”.
Sua concepção de ação direta, hoje com novas roupagens, revive plena na Estratégia de guerra nuclear. Seu conceito colocando a Política e a guerra num mesmo contexto, com o domínio da primeira sobre a segunda, que apaixonou o pensamento de Lenine; que nele buscou uma justificativa para a sua idéia de revolução permanente, irradiou-se pelas academias e institutos de todo o mundo.
Na atualidade, face à extensão e às projeções dramáticas da guerra nuclear, tornou-se fato inquestionável que o domínio da guerra deverá caber ao poder político.
É interessante observar-se que esta predominância do político sobre o militar, na concepção e em particular durante os conflitos armados, foi questão polêmica por ocasião da Grande Guerra, caracterizada principalmente nos desentendimentos entre o Presidente Clemenceau e o General Joffre. Atribui-se a Clemenceau a expressão “A guerra tornou-se assunto muito grave para ser tratado somente pelos militares”. O General Joffre teria respondido: “A guerra é assunto muito grave para ser dirigida por civis.” Assistimos aos desdobramentos dessa polêmica, no momento mesmo das decisões, durante os conflitos militares da Coréia, entre o Presidente Truman e o General MacArthur e durante a guerra do Vietnam entre o Presidente Nixon e o General Westmoreland.
Na era nuclear que estamos vivendo, com a dimensão total da guerra envolvendo a Nação ou as alianças como um todo, sacrificando igualmente frentes e retaguarda, não há mais dúvida de que a direção da guerra, as decisões mais altas, devem caber ao poder político.
Veremos, quando tratarmos da guerra nuclear, que o seu maior teórico, o General Beaufre, considera que “a Estratégia levou aos extremos a forma de ação direta de Clausewitz”.
Tratando dos objetivos estratégicos da defensiva e da ofensiva, Clausewitz apresenta o esquema seguinte:
Ofensiva Defensiva
• Destruição das forças inimigas.
• Conquista de uma posição.
• Defesa de uma posição.
• Conquista de alguns objetivos.
• Defesa de alguns objetivos.
Reitera sua tese sobre a importância da destruição das forças inimigas, colocando-a como principal objetivo da Estratégia ofensiva ou defensiva. A fixação do espírito de Clausewitz no objetivo principal de destruir a força principal do inimigo pela batalha, deu - lhe o título de patrono da tese conhecida por Estratégia de ação direta, contra a qual se contrapõem os teóricos da tese da Estratégia de ação indireta.
Cabe, aqui, repetirmos o General Beaufre quando diz: “A dissuasão nuclear, paralisando o conflito bélico, deixa uma margem muito estreita para a ação estratégica: aquela que é aproveitada pela estratégia soviética sobre a comunidade mundial. A ação política e econômica, a atualização de movimentos revolucionários e mesmo conflitos locais procuram escapar à paralisia imposta pela dissuasão nuclear.”
Mas, feitas estas considerações históricas sobre a evolução da guerra e da Estratégia nuclear vamos tentar desenhar o quadro atual, o panorama que a humanidade confronta nesta hora, na esfera de um conflito nuclear.
Existem no mundo duas superpotências - Estadas Unidos e União Soviética - detentoras de um arsenal de bombas nucleares e de vetores de lançamento (aviões, mísseis e satélites) algumas vezes superior, quantitativamente, à necessidade de cada superpotência de destruir militarmente a outra.

