Estratégia Militar - Princípios de Guerra ou Princípios Estratégicos - Estratégia de Guerra Revolucionária

19 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

A Estratégia da guerra revolucionária comunista, dirigida hoje pela Central de Moscou e suas filiais, constitui um corpo de doutrina que encontra seus fundamentos em dois veios principais: os conceitos da revolução permanente deixados por Lenine, que os extraiu de sua experiência dos movimentos urbanos de massa para a derrubada do poder e, em segundo lugar, as táticas de subversão havidas nas teorias e vivências da revolução no campo, trazidas por Mao Tsé-Tung.

Durante os anos em que o comunismo internacional se jactava de sua unidade monolítica de comando, nos anos 50, Stalin e Mao Tsé-Tung integraram as teorias e experiências revolucionárias bolchevista e chinesa; Lenine, o teórico da revolução das massas, já havia falecido e Stalin era seu herdeiro.

O filósofo, sociólogo e pensador francês Raymond Aron, na sua obra magnífica “Penser de la Guerre”, revela-nos com minudência que Lenine leu e anotou toda a obra clássica de Clausewitz. Anotou esta obra com suas observações próprias, deixando consignado o seu pensamento na aprovação mas principalmente na reação aos conflitos do escritor militar prussiano. Estas observações vieram a constituir o fundamento da estratégia comunista da revolução mundial da classe operária, que teêm por base a tática de luta de classes.

Vale a pena salientarmos algumas observações e decorrências do pensamento de Lenine hauridas na leitura de Clausewitz. No tocante ao conceito clausewitziano de que “a guerra é a simples continuação da Política por outros meios”, Lenine, incorporando o princípio de que guerra e Política estão inseridas num mesmo processo, imprime a este conceito a sua dinâmica própria, revolucionária, proclamando a sua versão que vale como uma verdadeira paráfrase da sentença do escritor militar prussiano sentencia o líder bolchevista que “a Política é a simples continuação da guerra por outros meios”. Daí se extrai o princípio de guerra permanente que Lenine transformou na sua teoria de revolução permanente.

Lenine associou à sua paráfrase as idéias de processo histórico dialético de Hegel, outro alemão, imprimindo às sístoles e diástoles sociais, às tensões e distensões sucessivas da sociedade, as razões geradoras do progresso.

As idéias fundamentais da Estratégia da guerra revolucionária, segundo Lenine, são: a conquista do poder por meio da rebelião das massas, implantação da república do proletariado submetida à ideologia marxista – Ieninista e a internacionalização do movimento proletário marxista - Ieninista.

Para alcançar estes objetivos estratégicos a tática principal aconselhada pelo líder bolchevista é a da luta de classes. Sobre esta tática vamos passar a palavra ao próprio Lenine :

“a instauração do regime socialista que virá suprimir toda a exploração do homem pelo homem e de uma Nação por outras Nações, o que suprimirá, infalivelmente, toda a possibilidade de guerra geral. Mas, para combater por um regime socialista teremos que nos colocar necessariamente a favor da luta de classes no interior de cada pais, que poderá gerar uma guerra entre as diferentes nações envolvidas nesta luta de classes. Assim, não poderemos evitar a possibilidade de guerras revolucionárias, quer dizer, de guerras oriundas da luta de classes, dirigidas pelas classes revolucionárias e tendo um objetivo revolucionário direto e imediato.”

“Lenine, como tática de luta de classes, aconselha aos comunistas a se infiltrarem na sociedade burguesa” para a conquista do poder, usando os seguintes processos: dividirem-se em pequenos grupos, praticarem a eliminação daqueles que colaborarem com organismos policiais, assaltarem bancos ou estabelecimentos públicos a fim de confiscar dinheiro para o partido do proletariado.

No fim dos anos 40 e no decorrer dos anos 50, fase caracterizada pela amizade fraterna entre os regimes comunistas de Moscou e de Pequim, a experiência da guerra revolucionária chinesa, praticada e vitoriosa sob a liderança de Mao Tsé-Tung, passou a influir na estratégia e tática subversivas exportadas pela central soviética. A experiência chinesa era rural, da revolução no campo, enquanto Lenine assentara toda a sua teoria revolucionária sobre os movimentos operários em grandes conglomerados urbanos. Como ass¬nalamos no inicio deste capítulo, a”estratégia e tática do comunismo” internacional hoje disseminada pelo mundo é uma mistura das teorias leninistas e maoistas.

O adepto da revolução comunista, na Africa, Oriente, América Latina, na sua maioria, estão divididos em grupos chamados leninistas, maoistas, lenanistas (linha de lenan). guevaristas etc., conforme se filiem à doutrina de Lenine ou Mao Tsé-Tung.

Inúmeros autores vêm estudando a perfilhação da doutrina de guerra revolucionária de Mao Tsé-Tung às teorias expostas pelo antiqüíssimo pensador militar chinês Sun Tzu.

Vimos que Sun Tzu, o verdadeiro pai da doutrina de ação indireta, criou sua concepção bélica inspirado nas características do espírito chinês, inclinado à não-violência e inspirado na paciência. Estas características serão sempre encontradas nos pensadores chineses em dois milênios de civilização.

Mao Tsé-Tung, 2400 anos depois de Sun Tzu, apropriou-se da mecânica da Estratégia do seu Mestre e nela incluiu o ingrediente marxista - Ieninista -o fanatismo ideológico e a revolução de massa.

Mao Tsé-Tung, nascido na província de Hunan em 1893, era filho de um fazendeiro relativamente próspero. Fez o curso secundário numa escola normal (de formação de professores). Em 1917 empregou-se como auxiliar de bibliotecário na Universidade de Pequim. Nessa ocasião, aproximou-se de um grupo de jovens marxistas liderados por Li Ta-chao e Chen Tu-hsiu. Nessa época, Mao descobriu Lenine; acompanhou apaixonadamente a polêmica entre Lenine e Trosky e começou a estudar Marx e Engels.

Por volta de 1920 Mao estava convencido de que tinha encontrado a sua missão: criar uma Nova China moldada nas teorias filosóficas e sócio econômicas de Marx e Lenine. Em 1921 filiou-se ao recém-formado Partido Comunista Chinês. A partir dai começa sua saga de revolucionário. Mao decidiu lutar para mudar o destino do povo chinês-naquela época 400 milhões de camponeses lutando dia a dia para obter um mínimo para sua subsistência. Uma população desprotegida, explorada por todos, pelos proprietários de terra, pelos usurários, pelos bandidos, pelas autoridades locais corruptas, e submetida às inclemências da natureza, pragas agrícolas, secas, inundações e epidemias. Somente os mais fortes sobreviviam os demais eram consumidos aos poucos pela subalimentação, as enfermidades e o inverno rigoroso do Norte e da Manchúria. Por outro lado, havia o panorama de uma China servindo passivamente de laboratório de experiências às Nações colonialistas-França, Inglaterra, Alemanha e Rússia. Esta China que despertou o patriotismo do jovem Mao, ele mesmo chamou de “semi colonial e feudal”.

Logo após Chiang Kai-Chek assumir o Comando do Exército Revolucionário Nacionalista, em 1926, Mao regressou à sua província natal, Hunan, visando a levantar os camponeses a favor da revolução marxista.

A bandeira alçada por Mao foi “expropriação das grandes propriedades e redistribuição das terras”; contra o radicalismo desta tese posicionou-se Chiang Kai Chek, preocupado em não perder o apoio dos proprietários de terra. Ai começou a funda rivalidade entre os dois maiores lideres chineses da época. Este antagonismo foi responsável pelo expurgo dos elementos comunistas das fileiras nacionalistas determinada por Chiang Kai Chek em Shangai, em 1927. Mao Tsé Tung e seu aliado Chu Teh começaram a estruturar um exército popular nas regiões montanhosas de Hunan. No verão de 1930 Mao recebeu uma diretriz do Comitê Central do Partido determinando uma ofensiva geral contra as cidades ocupadas pelos nacionalistas. Após inúmeros combates suas forças foram derrotadas em Changsha.

Mao e Chu Teh, então, tomaram a mais importante decisão da história do PC chinês -abandonar a orientação soviética e seguir somente as diretrizes de Mao. O motivo principal dessa decisão histórica foi o reconhecimento de que o processo revolucionário chinês teria que ser diferente do soviético: a revolução russa foi baseada na força de um proletariado industrial; a chinesa teria que ser a base de um proletariado rural. Esta decisão provocou defecções dos tradicionalistas e resultou na reformulação do processo revolucionário chinês, agora sob a orientação exclusiva de Mao e Chu Teh.

Ainda em 1930 Chiang Kai Chek inicia a grande ofensiva contra as forças militares comunistas. Após várias derrotas, os nacionalistas conseguiram se recuperar e, em 1933, realizaram o cerco das forças de Mao, na região de Hunan. Sentindo - se perdido, Mao resolve transferir sua base ao sul do território para a Província de Shensi, no extremo norte, para o que rompe o cerco e inicia a “grande marcha” de sua coluna, percorrendo cerca de 10.000 km.

A “grande marcha” transformou - se em uma das mais notáveis migrações da História, cuja finalidade foi preservar o poder militar do PC chinês. Inumeráveis rios e montanhas foram ocupados por essa coluna de milhares de homens enfrentando a inclemência de climas tropicais e subárticos, perseguidos por terra e pelo ar pelas incursões das forças nacionalistas. Vencidas todas estas dificuldades a coluna militar de Mao alcançou, afinal, a região protegida de Pao An. Mais tarde Mao transferiu sua base para Yenan, onde teve tempo e tranqüilidade para traduzir sua experiência escrevendo a teoria e a doutrina da Guerra Revolucionária.

Entre os legados de Estratégia e Tática revolucionárias deixados por Mao Tsé Tung destacamos: A Guerra de Guerrilhas, A Guerra Prolongada e Problemas Estratégicos da Guerra Revolucionária na China.

Vários trechos da estratégia e tática de Mao Tsé Tung tornaram-se conhecidos e foram objeto de muitos comentários e estudos nos meios militares ocidentais. Entre estes destacamos:

“Quando o inimigo avançar, recue; quando o inimigo fizer alto, inquiete-o; quando o inimigo evitar o combate, ataque-o; quando o inimigo retirar-se, persiga-o.”

“Em princípio, todo deslocamento de forças deve ser feito sigilosa e rapidamente. Artifícios como fazer provocações a Este enquanto estiver atacando a Oeste, aparecer simultaneamente ao Norte e ao Sul, atacar e desaparecer em ações noturnas, são táticas que devem ser usualmente empregadas para iludir e confundir o inimigo. Alta flexibilidade para dispersar, concentrar - se e surpreender é uma manifestação concreta de iniciativa na guerra de guerrilhas onde a falta de flexibilidade e a lentidão conduzem à passividade e à derrota. Os comandantes provarão sua capacidade menos pela compreensão de como é importante o fator flexibilidade do que pela sua aptidão de realizar a rápida dispersão, concentração e mudança do dispositivo de suas forças de acordo com as exigências das circunstâncias. A capacidade dos comandantes em prever as mudanças de atitude tática em tempo oportuno não é fácil de adquirir, exceto para aqueles que são capazes de absorver com a mente aberta as experiências alheias e próprias. A flexibilidade das guerri¬lhas não deve ser considerada receita antecipada mas fruto das circunstâncias reais.”

“O ataque pode ser mudado em defesa, e a defesa, em ataque; o avanço pode ser mudado em retirada, e a retirada, em avanço; forças de contenção podem ser mudadas em forças de assal¬to, e forças de assalto, em forças de contenção.”

“A astúcia e a surpresa são os dois princípios - chave da guerrilha. Deve-se adotar toda sorte de medidas de astúcia para levar o inimigo a juízos falsos e ações erradas, neutralizando sua superioridade e negando-lhe a tomada de iniciativa. O inimigo iludido acredita em imagens irreais. Ao mesmo tempo, deveos ocultar nossa real imagem do inimigo. Os olhos e ouvidos dos comandantes inimigos devem ser fechados. Somente as armas da astúcia não são suficientes; os comandantes inimigos devem ser levados a um estado de confusão se possível próximo ao desespero. O moral do inimigo é objetivo da mais alta prioridade; seu enfraquecimento é essencial antes dos combates.”

Os princípios da estratégia de Mao Tsé Tung, inspirados na doutrina de ação indireta de Sun Tzu e adaptados aos processos revolucionários de Lenine, passaram pelo crivo de sua longa experiência bélica - as lutas do Exército Vermelho Chinês contra as forças do Kuomitang (Chiang Kai-Chek) e a guerra contra os japoneses.

Novas experiências da aplicação dos princípios e processos de guerra revolucionária tiveram lugar durante a extenuante Guerra do Vietnam, onde os vietcongues, sob a direção de Ho Chi Minh e do General Giap, alcançaram, durante quase 20 anos, expressivas vitórias contra as forças francesas e depois as norte-americanas.

Em nosso continente, hoje, assistimos ao desenrolar da Estratégia de guerra revolucionária comunista, particularmente na América Central e Caribe, tendo Cuba como principal foco de irradiação e a Nicarágua como experiência em fase aguda da luta visando ao assentamento de um segundo governo obediente a Moscou.

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