Estratégia Militar - Princípios de Guerra ou Princípios Estratégicos - Estratégia Nuclear

19 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

A humanidade vive, hoje, intensa e dramaticamente, a expectativa da guerra nuclear e da guerra espacial (ou guerra nos espaços, ou guerra nas estrelas).

O aparecimento da bomba atômica como engenho bélico revolucionou completamente o cenário da guerra.

As duas primeiras bombas atômicas lançadas pelos norte-americanos sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, no final da II Guerra Mundial, deram aos estrategistas a visão clara de que, dali para diante, a guerra adquiria uma extensão e um grau de violência nunca antes imaginados. Surgia uma nova arma de poder mortífero e destruidor jamais concebido pelo homem e contra a qual não se vislumbrava nenhum recurso de defesa. A ameaça de guerra atômica como que paralisou, por algum tempo, a mente dos estrategistas militares.

A fabricação da bomba atômica, baseada nos avanços no campo da fissão nuclear, exigindo alta tecnologia, foi inicialmente monopólio dos Estados Unidos (de 1945 a 1949). Em 1949 a União Soviética explode sua primeira bomba de fissão, passando a participar e a concorrer com os Estados Unidos desse monopólio. Aí começa a corrida nuclear entre as duas superpotências. Aumenta cada dia a capacidade de fabricação e poder explosivo dos engenhos. Os estrategistas tratam do assunto sob’ o título de escalada nuclear. Outros países com menor capacidade entram na escalada - Inglaterra, França e China. Ao aumento dos arsenais corresponde o aumento das explosões em campos de prova, em regiões afastadas, no Oceano Pacífico e outros. A bomba de fissão é substituída por outra, de poder destruidor muito mais aterrorizante -a bomba de fusão nuclear -também chamada de bomba de hidrogênio. Lança-a, experimentalmente, os Estados Unidos, em 1951, também logo seguido da União Soviética.

A escala é caracterizada pelo número de bombas e pelo aumento da potência destruidora das mesmas. As bombas de Hiroshima e Nagasaki foram de 20 quilo tons de potência (equivalente à explosão de 20 toneladas de tri nitroglicerina). Hoje já existem nos arsenais dos “dois grandes” bombas de potência de 20.000 quilo tons, mil vezes mais mortíferas e destruidoras que aquelas duas que foram lançadas em 1945 contra as duas cidades japonesas.

A tecnologia da bomba desenvolve-se, paralelamente, à tecnologia do vetor de lançamento. Também no campo dos mísseis Portadores de bomba desenvolveu-se a mais frenética escalada em busca da superioridade em alcance e precisão. As duas primeiras bombas foram lançadas por aviões convencionais, a hélice, bombardeiros do tipo 8-29. Pouco a pouco os mísseis foram substituindo os aviões no transporte de bombas. Vieram, no começo, os mísseis de alcance médio; depois, os chamados continentais e por fim os intercontinentais, ou balísticos, lançados de silos terrestres ou de submarinos.

Na medida em que progredia a estratégia de lançamento, alterava-se a estratégia de ataque e defesa nuclear. Na época dos mísseis de alcance continental, foram criadas, através de alianças internacionais, bases de lançamento circundando os objetivos visados. Com o aumento dos alcances de continentais para intercontinentais, essas bases de lançamento próximo foram se tornando menos importantes. As duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, de seus próprios territórios, atualmente, podem atingir o território de seu adversário, com mísseis intercontinentais portadores de bombas carregando de 1 a 10 cabeças nucleares, orientada, cada uma, para objetivos estratégicos diferentes. Submarinos portando dispositivos de projeção têm, também, capacidade de lançamento de mísseis portadores de engenhos nucleares, oferecendo à Estratégia de ataque maior fator de mobilidade e surpresa.

Dos mísseis aos satélites foi um passo. Era o domínio dos espaços siderais além da atmosfera. Nova corrida; chegada do homem à Lua (1969). Lançamento de satélites de reconhecimento, não pilotados, à proximidade de planetas do sistema solar. Lançamentos de satélites com várias finalidades de observação científica e de espionagem. E, por último, a chamada guerra espacial ou guerra nas estrelas, com o que os Estados Unidos pretendem criar um escudo defensivo contra os ataques nucleares. Formaram-se os binômios míssil - bomba e satélite-bomba integrando, ajustando e aperfeiçoando cada vez mais a associação do vetor de lançamento ao engenho explosivo.

Este é o quadro paralisante da guerra nuclear. Paralisante porque as duas superpotências rivais acumularam enormes arsenais e dispõem de inúmeros meios de lançamento intercontinental; tudo aliado a um dispositivo de vigilância recíproca, detecção eletrônica da agressão e da resposta imediata. Criou-se, assim, uma “paralisia”, resultado da certeza da destruição mútua.

Cabe, aqui, repetirmos o General Beaufre quando diz: “A dissuasão nuclear, Paralisando o conflito bélico, deixa uma margem muito estreita para a ação estratégica - aquela que é aproveitada pela estratégia soviética sobre a comunidade mundial: a ação política e econômica, a utilização de movimentos revolucionários e mesmo conflitos locais que procuram escapar à paralisia imposta pela dissuasão nuclear.”

Mas, feitas estas considerações históricas sobre a evolução da guerra e da Estratégia nuclear, vamos tentar desenhar o quadro atual, o panorama que a humanidade confronta nesta hora na esfera de um conflito nuclear.

Existem no mundo duas superpotências - Estados Unidos e União Soviética - detentoras de um arsenal de bombas nucleares e de vetores de lançamento (aviões, mísseis e satélites) algumas vezes superior, quantitativamente, à necessidade de cada superpotência de destruir militarmente a outra.

Com o propósito de evitar a disseminação pelo mundo das armas nucleares e de guardar para si o seu monopólio, os países do então chamado “Clube Atômico” conseguiram, através da ONU, que fosse assinado, em 1968, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, através do qual foi criada a Agência Internacional de Energia Nuclear, com sede em Viena, Áustria.

A Agência procura controlar a expansão de armas através do “Tratado de Salvaguardas,” por meio do qual os países signatários aceitam a fiscalização da mesma, até mesmo a inspeção “ín loco “ visando a evitar que aqueles que possuem reatores produtores de energia nuclear para fins pacíficos reorientem suas atividades adquirindo capacidade de fabricar armas nucleares.

Em setembro de 1984 os países signatários do Tratado de Não Proliferação reuniram-se em Genebra, a fim de fazerem um balanço dos esforços desenvolvidos pela Agência Internacional de Energia Nuclear, no sentido de impedir a disseminação de armas. A situação levantada nessa reunião de Genebra, onde estiveram presentes 85 países signatários do Tratado de Não Proliferação, foi melancólica. Os esforços realizados no sentido da contenção da expansão de armas ou da possibilidade de vir a fabricar armas têm sido fracassados. A maioria dos países do chamado 3º Mundo acusa as superpotências de uma atitude hipócrita; não aceitam, aqueles países, a incoerência entre a escalada nuclear das superpotências e seus argumentos pacifistas tentando proibir outros países de desenvolverem uma tecnologia avançada.

O balanço da situação nuclear, realizado por ocasião da citada Reunião de Genebra, dá-nos o seguinte quadro: potências possuidoras da arma nuclear: Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França, China e Índia; potências médias, em vias de fabricar a ar¬ma : Paquistão, Israel, Africa do Sul e, em segundo estágio de adiantamento, Argentina e Brasil; a Holanda domina completa¬mente a tecnologia do reprocessamento do urânio e fabricação do plutônio, mas não se tem notícia que objetive a produção de ar¬mas; outros pa (ses como o Japão, Alemanha Ocidental e Ubia de¬senvolvem pesquisas adiantadas no campo da energia nuclear.

A matéria-prima necessária para a fabricação de uma bomba nuclear é: Urânio 235 (U-235) e plutônio 239 (PU-239). O U-235 é obtido através do processo de enriquecimento do urânio natural. Apenas, cerca de 20 kg de U-235, com 93% de pureza, foram necessários para a fabricação da bomba lançada sobre Hiroshima, em 1945. O reprocessamento é a fórmula usada para extrair PU-239 dos dejetos de combustíveis utilizados pelos reatores nucleares. Os reatores do tipo breeder, mais modernos, preferem utilizar o plutônio do urânio.

Esta certeza da destruição mútua, por meio de uma represália devastadora em proporções inimaginável sobre o próprio território da potência atacante, gerou o impasse nuclear que vem livrando a humanidade da mais desumana das guerras. Gerou o terror nuclear. Na impossibilidade de resolver seus antagonismos através da guerra nuclear, as superpotências, nestes últimos 40 anos, consomem sua vocação guerreira nas áreas de disputa estimulando as guerras convencionais e a guerra revolucionária.

Diz, o Coronel francês Guy Doly: ” A Estratégia nuclear levou aos extremos a forma de ação direta de - Clausewitz.”

Quanto à estratégia total da atualidade, quem melhor a conceitua é o próprio General francês André Beaufre:

“A estratégia total comporta uma combinação de dissuasão nuclear e de ação. A dissuasão é a mola, que não pode deixar de pressionar, a ação é a espada, que pode alguma vez quebrar e parar.

Dissuasão e ação são dois termos complementares da Estratégia. O conceito de ação, aqui definido, comporta todas as formas de ação; desde as mais violentas até as mais insidiosas. “Trata - se de um conceito total que corresponde à estratégia total.”

Sobre a dissuasão estratégica, núcleo da concepção moderna de guerra total que alguns brasileiros vêm traduzindo pelo neologismo deterrência (do inglês deterrence), diz o General Beaufre:

“A dissuasão nuclear visa a paralisar o conflito bélico pela imposição ao agressor da ameaça de uma represália que não lhe permita sobreviver à agressão.”

1. longo Alcance Intercntinentais)

• Mísseis estratégicos (1 .01 8 vetores e 2.1 18 cabeças nucleares) IC8M -Mísseis logísticos intercontinentais (de base terrestre) -Titan II alcance 15.000 krm portando cada míssil de - Minuteman II alcance 11 .300 km 1 a 3 bombas (cabeças) - Minuteman I I I alcance 13.000 km

UNIÃO SOVIt:TlCA

1) Longo Alcance (Intercontinentais) (1 .398 vetores e 6.420 cabeças nucleares) • • • M(S$8;$ 9str8tt!gicos SS1 1 Modelo 1 -alcance 10.500 km p:lrtando 1 bomba Modelo 2 -alcance 8.800 km portando 3 bombas SS1 3 -alcance 10.QOO km p:lrtando 1 bomba S51 7 Modelo 1 -alcance 10.QOO km portando 4 bombas Modelo 2 -alcance 11 .QOO km portando 1 bomba Modelo 3 -alcance 10.000 km JX)rtando 4 bombas 5518 Modelo 1 -alcance 12.000 km portando 1 bomba Modelo 2 -alcance 11 .000 km portando 4 bombas Modelo 3 -alcance 10.500 km portando 1 bomba (20 megatons) Modelo 4 -alcance 11 .000 km portando 10 bombas Modelo 5 -alcance 9.000 km portando 10 bombas 5519 Modelo 1 -alcance 9.000 km JXlrtando 6 bombas Modelo 2 -alcance 10.QOO km portando 5 bombas Modelo 3 -alcance 10.000 km portando 6 bombas SS20 -em fabricaçao e testes Mfsseis baflsticos lançados de submarinos (979 vetores e 2.787 cabeças nucleares) SS·N·5 55-N-6 Mod. 1 Mod. 2 Mod. 3 55-N-S Mod _ 1 Mod. 2 SS·N ·1 7 SS-N-1 S’Mod .l ——. –Mod. 2 -Mod. 3 -SS·NX-20 -alcance 1.400 km portando 1 bomba alcance 2.400 km JX)rtando 1 bomba alcance 3.000 km portando 1 bomba alcance 3.000 km portando 2 bombas alcance 7.800 km portando 1 bomba alcance 9.100 km portando 1 bomba alcance 3.900 km portando 1 bomba alcance 6.500 km portando 3 bombas alcance 8.000 km portando 1 bomba alcance 6.500 km J:X:>rtando 7 bombas alcance 8.300 km portando 9 bombas Bombardeiros estratégicos (170 aviõ’es e 680 cabeças nucleares) TU 95 Bear B/C ­alcance 12.800 km carga até 40 bombas de 1 .000 libras Mya-4-Beson -alcance 11 .200 km cargà até 20 bombas de 1.000 libras To tal -9.987cabsças nuclearss

2) Mfsseis de Alcance Intermediário SS·4 -alcance 2.000 km SS·5 -alcance 4.000 km SS-20 Mod. 1 -alcance 5.000 km Mod. 2 -alcance 5.000 km

3) Misseis de Alcance Tático SS·1-8 -alcance 150 km SS·l-C -alcance 300 km Frog 7 -alcance 70 km SS·1 2 -alcance 900 km S5·21 -alcance 120 km.

E o risco da destruição recíproca cujo preço ninguém quer pagar.

Mas, se de um lado a Estratégia de dissuasão paralisou o desencadeamento do conflito nuclear, por outro estimulou a escalada nuclear, pois nenhum dos rivais pode permitir que o outro o supere em meios de destruição; e, ao mesmo tempo, incentivou as ações secundárias, as guerras convencionais, as guerras de guerrilhas, a guerra revolucionária.

A Estratégia nuclear é um jogo em que entram em consideração dois fatores essenciais: seleção dos alvos e seleção do binômio vetor de lançamento-bomba.

Na seleção dos alvos entram em apreciação qual o objetivo da destruição desejada - destruição do sistema militar inimigo laivos militares) ou destruição da estrutura de funcionamento do Gover-no e do Estado inimigos (alvos não-militares).

No primeiro caso os alvos mais. importantes são: bases de míssseis, bases aéreas, bases navais, centros de comando militares, depósitos de bombas, instalações de forças convencionais.

Entre os alvos não-militares destacam-se: sedes de governo, centros de comunicações, sistemas de transportes, sistemas de produção e distribuição de energia, centros industriais.

No tocante ao binômio bomba-vetor de lançamento, o Quadro seguinte mostra os tipos de engenhos existentes nos arsenais das superpotências nucleares.

Resumindo-se a disponibilidade de cabeças nucleares prontas para o lançamento intercontinental, chegamos aos seguintes números:

Estados Unidos 10. 175 e União Soviética 9.987.

Não computamos as quantidades de mísseis de alcance intermediário e tático.

No que se refere à redução do arsenal nuclear por comum acordo entre as duas superpotências, as assessorias dos Governos de Washington e Moscou prepararam para ser negociada na reunião de cúpula realizada em Genebra, em novembro último, as posições abaixo resumidas:

A reunião de cúpula de Genebra, entre os Presidentes Reagan e Gorbachev, terminou. sem acordo algum envolvendo números; mas inaugurou um clima de conversação cordial entre os dois dirigentes das maiores superpotências, clima este que, no futuro, poderá resultar em medidas mais efetivas de controle e redução de armas nucleares.

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