Estratégia Militar

19 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

No conceito de Lenine encontra-se a semente da chamada “guerra’ revolucionária”, que será objeto de nossa atenção em seguida, e que visa a minar o moral do inimigo, “atuando essencialmente sob sua mente, através da propaganda, dos atos de terrorismo e de intimação”.

É interessante se notar, também, que os conceitos estratégicos de ação indireta de Liddell Hart tiveram como precursores o chinês Sun Tzu (500 anos antes de Cristo) e seus discípulos contemporâneos Mao Tsé-Tung e o General vietnamita Giap.

Vale a pena, aqui, reconstituirmos a influência de Sun Tzu e de Mao Tsé-Tung, o primeiro precursor e o segundo grande mestre da Estratégia de ação indireta.

O clássico de Sun Tzu, “A Arte da Guerra”, foi escrito nos últimos anos do século VI antes de Cristo. Consta que o autor o ofereceu ao Rei Ho-Iu, da dinastia Wu. Sua difusão no Ocidente deve-se ao Padre Amiot, um jesuíta missionário em Pequim. A tradução do Padre Amiot foi divulgada em Paris em 1772. Assim, podemos di¬zer que a teoria estratégica de Sun Tzu é inteiramente diversa ao pensamento estratégico de Clausewitz, que teve predominante influência na Europa a partir dos anos do lançamento de sua obra clássica Vom Kriege, 1832, até hoje.

Sun Tzu considerava a guerra “um assunto de vital importância para o Estado”, exigindo, por isto, acurado estudo e análise. Ele nos oferece a primeira tentativa conhecida de formular uma doutrina estratégica, baseada em planejamento e em princípios de conduta das operações. Acredita que um estrategista deve ser capaz de submeter as forças inimigas sem engajá-Ias na batalha, de ocupar as suas cidades sem necessidade a um cerco destruidor e de derrubar seu governo sem batalhas sangrentas.

Sun Tzu estava convencido de que a Estratégia envolve uma habilidade manobreira mais do que o choque de forças. A superioridade numérica, por si só, não representava vantagem. Considerava Sun Tzu que os fatores morais, intelectuais e circunstanciais são mais importantes no confronto de Exércitos do que os fatores da força física e aconselhava os reis e comandantes a não se iludirem com a superioridade física de seu poder militar. O escritor militar chinês não concebia a guerra em termos de massacre e destruição;

o verdadeiro objetivo estratégico, dizia, é conquistar o território e as forças inimigas intactas, ou tão intactas quanto possível.

Acreditava Sun Tzu que o planejamento estratégico meticuloso, baseado na informação correta sobre o inimigo, era fato r que contribuía para uma decisão militar rápida. Sempre levava em conta os efeitos da guerra sobre a economia e, indubitavelmente, foi o primeiro a observar a inflação dos preços inevitável durante as guerras. Afirmava: “Nenhum país é beneficiado pela guerra prolongada.” Preocupava- se com os problemas logísticos de apoio ao Exército.

Sobre as qualidade de um bom general dizia: “Boa moral, emocionalmente sereno, controlado de atitudes, conhecedor da influência dos fatores, do terreno e das condições climáticas sobre a manobra estratégica.” Antes da abertura das hostilidades, Sun Tzu aconselhava o lançamento de atividades clandestinas no interior do país inimigo, espalhando boatos falsos e informações contraditórias.

Os princípios de Guerra Revolucionária nós os encontramos inicialmente na concepção de Sun Tzu. Como vimos, o estrategista chinês - o mais antigo mestre da Estratégia de ação indireta -aconselhava a, antes do início das atividades bélicas, e também durante as mesmas, infiltrar - se no interior do país inimigo, espalhando boatos falsos e informações contraditórias, buscando enfraquecer o seu moral e a sua vontade de resistir. É a ação sobre a mente do inimigo.

Mao Tsé Tung foi o principal discípulo de Sun Tzu. Nascido em 1893, Mao Tsé Tung foi absorvido pelas idéias políticas de Marx e Engels, quando ainda muito jovem, assistente da Biblioteca da Universidade de Pequim. Em 1920, era já um comunista acabado. Desde este momento lançou-se à grande missão de sua vida - criar uma nova China baseada nas idéias políticas de Marx e Engels. Crescendo na hierarquia do comunismo chinês, Mao Tsé¬Tung tornou-se, ao mesmo tempo, um teórico da guerra revolucionária e um general combatente incansável na luta contra as forças do Exército Nacionalista de Chiang Kai-Chek.

Mao Tsé-Tung, partindo dos conceitos básicos de Sun Tzu, desenvolveu uma estratégia, uma tática e uma logística para a guerra. Suas teorias impressionaram Lenine e foram incorporadas pelos soviéticos que as utilizam como um dos mais eficazes instrumentos de agressão aos países que pretendem conquistar ou neutralizar no quadro do conflito mundial. Atualmente, vemos a guerra revolucionária em pleno desenvolvimento; particularmen¬te no Afeganistão e na América Central.

Em um dos seus livros, em 1937, disse Mao Tsé-Tung: “A primeira lei da guerra é preservar nossas forças e destruir as forças do inimigo.” Do ponto de vista estratégico, Mao concebeu esta forma de guerra como passando por fases sucessivas, através das quais ela vai aumentando sua área de influência e o grau de submissão da Nação atacada.

- A primeira fase é dedicada à organização, consolidação e preservação de uma base regional. A segunda fase visa à progressiva expansão dessa base. A terceira fase é a fase da decisão, quando a destruição e conquista da Nação são objetivadas.

Quanto às táticas que Mao Tsé-Tung aconselha, acompanhando essas três fases da manobra estratégica da guerra revolucionária, destacaremos: a primeira fase (de organização, consolidação, preservação de uma base regional) compreendendo:

• escolher o local para a base em região isolada e de difícil acesso;

• organizar um centro de treinamento de voluntários, agitadores e propagandistas;

• espalhar propagandistas entre a população próxima à base, a fim de persuadir e convencer os habitantes, transformando-os em adeptos da causa revolucionária;

• em conseqüência, criar em volta de cada base um cinturão protetor de simpatizantes em condições de assegurar o recrutamento de homens, a coleta de informações e o suprimento de alimentos. O processo a desenvolver nessa fase é essencialmente conspiratório, clandestino, metódico e progressivo. As operações militares só são admitidas eventual e esporadicamente.

- Na segunda fase (de expansão da base) a ação direta assume um papel cada vez mais relevante. As práticas mais usadas são:

• atos de sabotagem e terrorismo;

• sequestros de colaboracionistas e reacionários;

• ataques de surpresa a postos isolados da polícia ou do Exército e apropriação de armas e recursos logísticos. O objetivo procurado nessa fase, além da expansão da área de influência pela propaganda, o terror e a intimidação, é a apropriação de armas, explosivos, dinheiro, material de saúde e equipamentos de comunicação. As ações são praticadas por guerrilhas que vão se tornando cada vez mais adestradas e melhor equipadas.

Os habitantes das áreas envolvidas são submetidos a constante propaganda para aderirem à causa revolucionária e dar à mesma as características do movimento de massa.

- A terceira fase (fase da decisão, ou destruição do inimigo) como se vê, dependerá do êxito alcançado nas fases anteriores. A teoria de Mao Tsé-Tung, para esta fase, prevê que as guerrilhas já consolidadas se integrem num Exército revolucionário capaz de desafiar o inimigo (as forças do Estado) em combates do estilo guerra convencional. Esta fase deve ser prolongada por negociações, com postura de ameaça militar, durante as quais as forças revolucionárias aproveitam para melhorar suas posições (no campo militar, político, social e econômico). Durante as negociações, pouca ou nenhuma concessão deve ser esperada do comando das forças revolucionárias, cujo único objetivo é criar pelo cansaço, pelo jogo de impasses sucessivos, melhores condições para garantir sua unidade e garantir o processo vitorioso de sua causa.

O sucesso da “guerra de guerrilhas”, como usualmente é chamada a guerra revolucionária, a partir da segunda fase, depende essencialmente da montagem de uma boa rede de informações que assegure sempre, às forças revolucionárias, conhecimento preciso sobre as atividades e possibilidades das forças governamentais e lhes permita tirar a máxima vantagem das ações de surpresa.

No tocante à logística das guerrilhas é o próprio Mao quem diz em sua teoria que a “guerrilha não tem retaguarda”. Seus suprimentos devem ser retirados da própria área envolvida. O inimigo deve ser a principal fonte de recursos em armas, equipamento e munição. Ele mesmo escreveu certa ocasião: “Eu tenho pedidos de suprimentos aos arsenais de Londres assim como aos de Hanyang e, o que é mais importante, esses pedidos nos são entregues pelas unidades de transportes do inimigo que assaltamos.”

O pior é que não se tratava de uma brincadeira de Mao, mas de uma crua verdade. Vários comboios de armas e de suprimentos destinados ao Exército Nacionalista de Chiang Kai Chek caíram inteiros em mãos das forças de Mao, vítimas de ataques de surpresa, muitas vezes em conivência com elementos nacionalistas adesistas.

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