Guerra nas Estrelas - Strategic Defense Iniciative

20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

Desde abril de 1945 quando as duas primeiras bombas atómicas foram lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, numa dramática decisão do Presidente Truman, destinada a abreviar o fim da 2 Guerra Mundial, a humanidade assiste com apreensão e incertezas a uma escalada do arsenal nuclear das superpotências.

O aparecimento da bomba atómica como engenho bélico revolucionou completamente o cenário da guerra. Estes dois primeiros engenhos explodidos sobre as cidades japonesas deram aos estrategistas a visão clara de que, dali para diante, a guerra adquiria uma extensão e um grau de violência nunca antes imaginados.

A história da guerra atómica, que depois de algum tempo passou a ser chamada de guerra nuclear, vem passando por vários episódios nestes últimos 43 anos, cujos lances principais foram as duas explosões acima referidas, o monopólio norte-americano da nova arma, até 1949, a entrada da União Soviética na contenda atómica em 1949 (explosão de sua 1ª bomba); a entrada na corrida nuclear de outros países, Inglaterra, França, China, Ìndia, com seus modestos arsenais; o aparecimento, em 1951, de nova arma mais poderosa, bomba de fusão, chamada de hidrogênio, em substituição às anteriores bombas de fissão; o monopólio dos Estados Unidos sobre este novo engenho mortífero, logo em seguida, também superado pela União Soviética. Por fim, os dois grandes empenhados em disparada escalada a fim de superarem as novas tecnologias de lançamento (foguetes, mIsseis, satélites) e de fabricação de armas cada vez mais destrutivas.

Na atualidade, dois imensos arsenais antagónicos se defrontam, colocando não só os seus detentores, mas a humanidade inteira, sob a ameaça de uma hecatombe. O confronto vem sendo evitado pela estratégia de dissuasão (”deterrence”), a ameaça de destruição reciproca. Mas, a manutenção da dissuasão estratégica exige uma escalada permanente; nenhum dos dois grandes rivais poderá adquirir a certeza de que sairá vitorioso do choque nuclear. Nunca antes a humanidade assistiu a uma paz armada tão terrlvel e instável.

Cabe aqui a citação do conceito de dissuasão nuclear do General Beaufre, o mais destacado especialista francês da estratégia nuclear:

“A dissuasão nuclear visa a paralisar o conflito bélico pela imposição ao agressor da ameaça de uma represália que não lhe permita sobreviver à agressão”.

Esta paz armada em que vivemos há mais de quatro decênios, está se tornando cada vez mais crItica e dramática pelo acúmulo de meios de destruição que, gradativamente, são acrescentados ao arsenal mortlfero de dimensões planetárias. Uma “fagulha” de distração ou de precipitação poderá provocar a explosão incontrolada deste arsenal, dezenas de vezes superior às suas necessidades destruidoras; a escalada como fator de contenção levou ao exagero. Durante todo esse perlodo de confronto nuclear não havia aparecido, até 1983 (discurso do Presidente Reagan na rede de televisão americana). nenhuma estratégia defensiva válida, capaz de sobrepor-se à estratégia ofensiva conduzida pela dissuasão, pela escalada.

O discurso de Reagan, do qual destacamos o trecho abaixo:

“Convoco a comunidade cientIfica de nosso país, aqueles mesmos que nos deram armas nucleares, para voltarem os seus talentos, agora, para a causa da humanidade e da paz mundial, oferecendo - nos os meios para tornar essas armas nucleares impotentes e obsoletas”.

Estava lançada, nos Estados Unidos, uma nova estratégia defensiva contra a arma nuclear, baseada num sistema de guerra tecnológica, aplicando uma variedade de recursos tecnológicos em diferentes estágios de desenvolvimento com alta aplicação da eletrónica, dos raios laser, das partlculas neutras e outros tipos de emissões. Este sistema, orientado pelo então recém-criado “Strategy Defense Iniciative” (SOl), iria aperfeiçoar a tecnologia já provada em laboratórios, apta a identificar, rastrear, interceptar e destruir misseis balísticos e suas cabeças nucleares em sua trajetória, isto é, no espaço. Aí o nome com que a imprensa passou a denominar este sistema - “Guerra nas Estrelas”. A sugestão deste apelido revela o desejo de transferência desta guerra terrível das áreas terrestres para os espaços das estrelas.

Revela o cientista político norte-americano Zbigniew Brzezinski, de reconhecida competência e probidade, que quando acabou de ouvir o pronunciamento do Presidente Reagan na rede de televisão, convocando o mundo cientffico de seu pais para esta guerra espacial, ele próprio também convocou os seus amigos cientistas para avaliar a credibilidade do sistema defensivo capaz de levantar um escudo protetor contra as armas nucleares sobre os grandes centros urbanos dos Estados Unidos.

Foi, então, que tomou conhecimento dos últimos progressos que vinham sendo obtidos nas experiências com armas energéticas direcionadas, tais como raios laser e partlculas de raios dirigidas, visando à interceptação e à desintegração dos misseis e suas cabeças nucleares em suas trajetórias.

O especialista norte-americano em estratégia nuclear e professor da Universidade Georgetown, de Washington, em seu livro “Strategic Defense - Star Wars is Perspective”, informa-nos sobre os progressos das pesquisas no campo das chamadas armas espaciais. Refere-se aos trabalhos cientfficos do Dr. Edward Teller, na sua incansável procura de um recurso tecnológico capaz de contrapor-se à arma nuclear. O Professor Teller inspirou-se, para seus estudos, na convicção de que uma estratégia baseada na capacidade de destruição mútua era imoral e de que os meios, então disponlveis, de defesa anti míssil eram ineficazes e de fraca credibilidade. Em suas experiências realizadas em 1986, o Prof. Teller convenceu-se de que através da tecnologia do raio laser seria possível chegar-se a uma arma defensiva efetiva contra os misseis balfsticos e suas cargas nucleares.

Com o avanço das experiências ,em cooperação com outros cientistas e institutos, o Professor Teller está hoje convencido da efetividade de uma defesa anti missil, baseada essencialmente num sistema de emissão de raio laser. Participaram dos estudos e experiências do Prof. Teller outros cientistas como o Dr. Lowell Wood e o General Daniel Graham. Este grupo manteve vários contatos com membros do gabinete da Casa Branca e com o próprio Presidente Reagan, antes e depois de seu histórico pronunciamento de 23 de março e 1983.

O grupo de cientista liderado pelo Prof. Keyworth, assessor da Casa Branca, apresenta outra fórmula de instalação de um sistema defensivo baseado na energia dirigida.

Vale a pena lembrar que esta não foi a primeira vez que se tentou a defesa através de armas antimisseis. Nos anos 60 e começo dos 70, os Estados Unidos e União Soviética iniciaram experiências e fabricação de armas conhecidas então como “missil antimissil”.

Chegaram ambos à conclusão que longe de conter a escalada, tais sistemas defensivos iriam estimulá-Ia, pois cada contendor iria procurar aumentar o seu arsenal ofensivo a fim de assegurar a capacidade de penetração. Esta constatação levou as duas superpotências a firmarem, em 1972, o tratado de limitação do missil antibalistico (Anti-Ballistic Missile Treaty, ABMT).

A diferença principal entre os anteriores sistemas missil antimissil e o atual SDI (”Strategic Defense Initiative”) está nos meios defensivos empregados. No primeiro caso era uma arma nuclear contra outra, visando à interceptação no espaço, no segundo é uma guerra eletrônica utilizando uma defensiva baseada na emissão de raios dirigidos, invisiveis.

A guerra nas estrelas, para os Estados Unidos, representa uma tentativa unilateral de contenção da escalada nuclear. A forma então procurada, através dos acordos bilaterais de limitação de armas, até hoje fracassaram. Segundo Brzezinski, já citado por nós, a iniciativa norte-americana poderá levar os soviéticos a aceitarem os termos de uma negociação menos rigida no campo bilateral de limitação e armas nucleares. Este efeito, parece que já se nota, através das últimas propostas de Gorbachev.

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