O impasse no confronto nuclear - Os Efeitos da Estratégia da Dissuasão
20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen
Através dos últimos quarenta anos o conceito da estratégia nuclear dos norte-americanos vem evoluindo periodicamente.
Enquanto o governo de Washington admitia sua nitida superioridade no emprego da arma nuclear, isto é, até os anos 50, a concepção estratégica predominante era a da retaliação maciça.
Quando os soviéticos lançaram sua primeira bomba de hidrogênio, equiparando-se aos norte-americanos na tecnologia da fusão do átomo, os estrategistas de Washington viram - se obrigados a aceitar a chamada estratégia de retaliação mútua. Paralelamente ao desenvolvimento da tecnologia e da indústria nuclear, deram-se os grandes avanços na conquista dos vetores de lançamento, inaugurando-se o periodo de conquista do espaço por misseis e satélites.
A estratégia de retaliação mútua criou, em particular, nos Estados Unidos e na União Soviética, principais rivais na corrida nuclear. O terror ante a ameaça de uma destruição em proporções inaceitáveis. Começa ai, a busca de uma estratégia de segurança. Não havendo um sistema defensivo confiável contra o ataque nuclear, surge a estratégia da busca de proteção pela ameaça -baseada na certeza da mútua vulnerabilidade.
A convicção da mútua vulnerabilidade gerou uma estratégia algo contraditória, mas que vem funcionando desde os anos 60, - a da busca da estabilidade através do equilibrio da ameaça. A esta estratégia deu-se o nome de dissuasão (”deterrence”, que alguns traduzem pelo neologismo deterrência).
A estratégia de dissuasão provocou a escalada nuclear e a expansão dos projetos espaciais dos últimos 30 anos. A segurança é procurada pela estabilidade entre os dois arsenais, ambos obrigados a crescer constantemente, inundando o planeta dos mais catastróficos meios de destruição em massa. No dizer do Dr. Robert Bowman, Presidente do “Institute for Space and Security”, a estratégia de dissuasão representa para as populações a incomoda situação de “seqüestradas pela paz”. Explicitando sua opinião, diz o mesmo autor no seu livro “Strategic Defense”:
“Ironicamente, sob o ponto de vista da estratégia de dissuasão, as forças estratégicas estão protegidas contra um ataque nuclear, mas o povo não. Com efeito, a teoria da mútua vulnerabilidade (inspiradora da estratégia da dissuasão). como já foi dito por um dos seus proponentes, coloca as populações de ambos os lados na posição de seqüestradas pela paz”.
É interessante observar-se que no decorrer dos últimos 20 anos que precederam à famosa declaração do Presidente Reagan (23 de março de 1983) que veio revolucionar a reciprocamente consentida teoria de vulnerabilidade, predominou no espírito dos estadistas e estrategistas de Washington o preconceito de que, alterar o grau de ameaça do adversário representava “desestabilizar” o principio do equilíbrio pelo grau da ameaça. Esta desestabilização.seria uma provocação, um incitamento ao primeiro ataque (first strike).
A teoria da mútua vulnerabilidade vem influindo decisivamente nas negociações de limitação de armas nucleares desde o SALT, cujas conversações tiveram inicio em 1969 e foram consolidadas no Tratado de 1972 e emendas de 1974, firmados pelo Presidente Nixon e Secretário Geral Brezhnev. Exemplificando esta preocupação, encontramos, no SALT, o acordo mútuo sobre a proibição de instalar mais de 100 mísseis balísticos interceptores (chamados mísseis antimísseis).
Esta proibição obrigou os Estados Unidos a abandonarem um programa bilionário de interceptores defensivos já em avançado processo de instalação. Era a preocupação contrastante de desmontar a defesa para manter a estabilidade dissuasória baseada na manutenção do grau de ameaça.
A adesão pelo governo dos Estados Unidos à teoria da mútua vulnerabilidade, traduzida na aceitação da estratégia de dissuasão, levou as autoridades de Washington a determinarem, em cumprimento aos acordos firmados, a eliminação de todo o sistema de defesa estratégico que vinha sendo instalado para destruir os mísseis soviéticos. Como exemplo, citaremos que o número de aviões de interceptação caiu de 1 200 em 1966, para 300 em 1975. Em 1975, foram desativados os últimos 135 mísseis SAM, terra - ar, destinados à defesa do território contra um ataque nuclear. Enquanto estas reduções eram feitas, desativando a defesa, a União Soviética aumentava seu arsenal de mísseis balísticos intercontinentais (lCBM).
O atual governo norte-americano está convencido de que os Estados Unidos foram envolvidos num jogo de propaganda que alimentou os preconceitos criados sobre os conceitos de estabilização e desestabilização. Houve uma grande demora para se convencerem do absurdo em se aceitar uma estabilização à base da escalada e de uma desestabilização que obrigava a desmontar o sistema de defesa. Contrariava-se o processo histórico da guerra da lança e do escudo.
Esta perversa contradição de querer preservar a segurança aumentando a capacidade ofensiva e não a capacidade de defesa ficou bem expressa pelo Presidente Reagan por ocasião de sua visita, em 1980, ao NORAD (centro de defesa aérea instalado nas cavernas das montanhas Cheyenne, no Colorado):
“NORAD é um lugar surpreendente - encontra-se no Colorado, no subsolo de uma montanha. Ali, atualmente, eles rastreiam vários milhares de objetos no espaço, mísseis e satélites nossos e de outros países; chegam ao ponto de rastrear uma luva perdida por um astronauta que ainda está circulando no espaço. A coisa que me surpreende é a ironia que isto representa: possuidores desta alta tecnologia, podendo rastrear esta infinidade de objetos, não somos capazes de interceptar nenhuma arma dirigida contra nós. Não acredito que tenha havido alguma época na História em que não se encontrasse uma defesa para qualquer tipo de agressão”.
No inconformismo revelado pelo Presidente Reagan através destas palavras encontra-se claramente a semente em seu pensa¬mento que, três anos depois veio se frutificar nas declarações lançando o “Strategic Defense Initiative” (SDI) em 1983.
Eis as palavras do Presidente Reagan, em 1983:
“Convoco a comunidade cientifica do nosso país, aqueles mesmos que nos deram as armas nucleares, para voltarem os seus talentos, agora, para a causa da humanidade e da paz mundial, oferecendo-nos os meios para tornarmos essas armas importantes e obsoletas”.
Nesse mesmo discurso o Presidente dos Estados Unidos contesta a eficiência da estratégia de procurar estabilizar o conflito pela dissuasão, baseada numa ameaça de destruição inaceitável.
Diz o Presidente:
“Não seria melhor salvar vidas do que mantê-Ias sob ameaça? Seremos capazes de demonstrar nossas intenções pacificas empenhando toda a nossa habilidade e nossa boa fé na busca da verdadeira estabilidade? Penso que seremos, e devemos. Depois de consultar minuciosamente meus assessores, inclusive a junta de Chefes de Estado-Maior, acredito que há um caminho … Por isto nos engajamos num programa destinado a conter a poderosa ameaça nuclear soviética com medidas defensivas.
Voltamo-nos para as grandes possibilidades de nossa tecnologia gerada pela nossa imensa base industrial. Sei que esta será uma tarefa técnica formidável que não poderá ser alcançada antes do fim do século. “Entretanto, nossa tecnologia atual já alcançou o nlvel de sofisticação que nos dá razões para começar este esforço”.
A nova teoria norte-americana de defesa estratégica, contida no SDI, invoca entre outras, razões morais, - que não se justifica a um governo conformar-se em manter o seu povo sob a permanente ameaça do efeito catastrófico de um primeiro ataque (first strike) nuclear.
Mas, tendo sido a tese da dissuasão tão discutida por atuantes autoridades responsáveis como: Mc Namara, Henry Kissinger, Brzezinski, General Beaufre, Helmut Shmidt, Helmut Kohl e outros, vale a pena alinharmos algumas idéias mais, favoráveis e desfavoráveis à estratégia de dissuasão.
Diz o autor, já citado, Robert Bowman:
“Os Estados Unidos, inquestionavelmente são o líder mundial da tecnologia espacial”. No momento assistimos a intenso debate de como utilizar esta vantagem para aumentar a segurança nacional. “No centro deste debate está o retorno de toda a questão da defesa contra o míssil balístico, uma coisa que pensávamos ter sido ultrapassada pelo Tratado ABM (Limitation of Anti-Ballistic Missile Systems, 1972)”.
O cientista e autor Keith Payne, considera que o aumento da potência estratégica dos soviéticos e a crescente instalação dos seus ICBM (mísseis balísticos intercontinentais) constitui um perigo inafiançável para a segurança dos Estados Unidos. Mostra-se preocupado com o aumento da capacidade soviética de destruir nossas forças de retaliação (silos), comandos, pontos sensíveis de comunicações e transportes, num primeiro ataque arrasador. Duvido que a garantia de estabilidade (efeito de dissuasão) dos Estados Unidos possa servir de freio a esta tremenda capacidade ofensiva dos soviéticos.
Enquanto alinhamos valiosas opiniões dos que duvidam ou passaram a duvidar dos efeitos da estratégia de dissuasão, há também inúmeros senadores e autores como Strobe Talbott e Charles Krauthemmer, que continuam a defender esta estratégia como fiadora que foi das três últimas décadas de estabilidade face à guerra nuclear, obtida apesar do crescente confronto em potencial.
Não há dúvida, entretanto, como reconhece o politicólogo e sovieticólogo Zbigniew Brzezinski, que a nova visão de defesa estratégica apresentada pelo Presidente Reagan através do SOl (Iniciativa de Defesa Estratégica), rompeu um impasse, - a aceitação a contragosto pela maioria do povo norte-americano de uma estratégia de contenção baseada no gradual aumento da possibilidade de sua própria destruição. Para o povo era uma estratégia de deserdados, de seqüestrados. A promessa da nova estratégia visualizada para o futuro é animadora - propõe destruir, com engenhos não nucleares, na sua trajetória, as máquinas portadoras da morte inapelável. Promete salvar vidas e bens. Por isto recebeu entusiásticos aplausos da opinião pública norte-americana.

