Os programas de novas tecnologias aplicáveis á defesa estratégica na Europa ocidental, Japãoe União Soviética

20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

Reconhecidamente o programa SDI do governo norte - americano é o mais conhecido e respeitado no mundo, no que diz respeito à exploração de novas tecnologias para sua aplicação no campo militar. As razões são óbvias. O patético e impressionante pronunciamento do Presidente Reagan, de 1983, convocando a comunidade científica dos Estados Unidos, “aqueles que nos deram as armas nucleares, para voltarem seus talentos, agora, para a causa da humanidade e da paz mundial, oferecendo-nos os meios para tornar estas armas nucleares impotentes e obsoletas”. Mas, avalizando esta mensagem, o governo de Washington abalou o espírito dos mais descrentes, colocando à disposição do programa SDI para o período 1985/1989, a elevada soma de 26 bilhões de dólares. Por fim, o adiantamento da tecnologia de ponta nos estudos permite que se acredite na possibilidade de passagem da área das experiências laboratoriais da nova tecnologia espacial para o campo de suas aplicações militares.

Na Europa Ocidental, o anúncio do novo programa espacial norte - americano destinado à defesa estratégica contra armas nucleares causou um impacto de frustração competitiva. Os meios científicos europeus manifestaram - se no sentido de que o velho continente deverá aceitar o desafio e projetar, unitariamente, um programa capaz de acompanhar os avanços da tecnologia de ponta dos Estados Unidos.

O Presidente Mitterrand, da França, em abril de 1985, lançou o projeto Eureka, convidando todos os países da Europa Ocidental, aliados através da Comunidade Económica Européia (CCE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a juntarem seus esforços num programa de investigação cientifica e alta tecnologia compreendendo, particularmente, os campos das comunicações, microeletrónica, iniormática, robótica, biogenética e desenvolvimento espacial.

Em 1985, as despesas da França na área de investigação científica e alta tecnologia se elevavam a 1,9% do PNB. Atualmente alcançam 2,2% e a meta para o inicio dos anos 90 é de 2,9%. O projeto Eureka é uma tentativa do governo de Mitterrand de atualizar o projeto Tecnologia, Desenvolvimento e Emprego (TOE) aprovado em 1982 na reunião de cúpula da Comunidade Económica Européia em Versalhes. O governo francês, após o desafio à ciência e tecnologia européias apresentado pelo programa norte - americano SOl, julgou necessário propor uma aceleração e modernização dos projetos europeus.

Há uma diferença essencial entre SOl norte-americano e o Eureka europeu. O programa norte - americano visa, objetivamente, a desenvolver a alta tecnologia de laboratório, para aplicá-Ia a fins militares. O projeto europeu, de iniciativa francesa, pretende alcançar inicialmente um alto desenvolvimento tecnológico para fins pacíficos, que poderá vir a ser aplicado a objetivos bélicos.

O projeto Eureka, coordenando experiências cientificas e tecnológicas na França, Inglaterra, Alemanha Ocidental, Itália, Holanda, Dinamarca, Suécia, Noruega, representa um convite a estes países para superarem os nacionalismos a fim de que o velho continente chegue ao fim do século, unificado e em pé de igualdade com os Estados Unidos e o Japão.

A não ser que os paises da Europa Ocidental sejam capazes de reunir seus esforços de pesquisas e aplicação no setor das tecnologias de ponta, correrão o risco de, no inicio do século, apresentarem-se “na posição de terceiro mundo industrial” (Presidente Miteterrand).

O projeto Eureka pretende coordenar os projetos de alta tecnologia européia e aplicá-los no seio da Comunidade Económica Européia (CEE). Inclui cinco grandes setores de pesquisas:

Euromática - informação, computadores ultra-rápidos, super calculadoras, inteligência artificial;

eurobot - robótica de terceira geração, desenvolvimento do laser de potência;

eurocom - integração dos sistemas de comunicações;

eurobio - biotecnologias, suas aplicações no campo da agricultura, alimentação e saúde;

euromat - pesquisa de materiais adaptáveis aos modernos equipamentos industriais e espaciais.

Cada um desses setores envolve vários subprogramas a cargo de diferentes países.

Por outro lado, alguns países europeus já aprovaram o SDI norte-americano e colaboram em segmentos particulares de pesquisas e desenvolvimento tecnológico, tudo sob o patrocínio maior do Tratado da Organização do Atlantico Norte (OTAN).

Na Inglaterra o governo da Sra. Tatcher vem financiando um programa de modernização do sistema de defesa incluindo pesquisas no campo da energia dirigida. Além disso, várias autoridades politicas e entidades cientificas vêm manifestando o desejo da Inglaterra em participar das pesquisas em curso nos Estados Unidos. Na Alemanha Ocidental é grande a expectativa; o 1º Ministro Helmuth Kohl, diante do Parlamento fez o seguinte pronunciamento:

“Em vista da magnitude dos recursos financeiros com os quais o governo norte - americano apóia o programa de pesquisas SDI, torna-se evidente para qualquer um que importantes resultados poderão ser alcançados - resultados cuja significação, inclusive de importância económica, deverão ultrapassar os limites da defesa estratégica.

Nós estamos interessados em utilizar os resultados dessas pesquisas em nossa indústria onde provocarão aplicações em setores civis revolucionários. “Podemos afirmar que a República Federal da Alemanha não se encontra, do ponto de vista tecnológico, muito distanciada dessas pesquisas e isto deve ser considerado”.

Em outro pronunciamento, o Ministro Kohl manifestou a necessidade da Alemanha Ocidental e outros aliados europeus da OTAN virem a participar das pesquisas do programa SDI a fim de não se tornarem “tecnicamente ultrapassados”.

O Japão, pais de reconhecida capacidade no setor da tecnologia de ponta nos setores eletrónico, microeletrónico, informático e de comunicação, realiza importantes programas de pesquisa e vem se destacando na sua aplicação nas atividades industriais.

Sobre energia dirigida o programa japonês até ao presente vem se dedicando, em especial, ao ramo da Medicina. O “know-how” japonês, se colocado à disposição dos Estados Unidos, virá certamente acelerar a efetivação do projeto SDI.

A estratégia soviética para a defesa antinuclear baseia-se no principio de “sobrevivência da mãe pátria”. A doutrina soviética de longa data enfatiza a necessidade de sobreviver e se possível vencer a guerra nuclear. Assim sendo, a União Soviética considera seriamente a possibilidade da guerra nuclear, assim como sua preparação para sobreviver em tal emergência. Este enfoque é completamente diferente do ponto de vista norte - americano que revela uma despreocupação pelo problema, o que fica bem caracterizado na desatenção com as medidas de sobrevivência.

Realmente, como veremos em seguida, enquanto os soviéticos encaram com seriedade as medidas de defesa ativa e passiva contra a guerra nuclear, os norte - americanos quase nada de efetivo implantaram nesse escopo.

O espírito despreocupado norte - americano em face da possibilidade da guerra nuclear foi traduzido pelo negociador Paul Warnke, delegado do Governo Carter nas negociações sobre limitação de armas nucleares.

Disse, então, o delegado norte-americano:

“Os soviéticos têm uma visão irrealista da guerra nuclear, nós devemos tentar educá-los no mundo real da estratégia das armas nucleares, na qual ninguém poderá vencer”.

É interessante analisar-se as posições soviética e norte - americana relacionadas com a defesa estratégica contra armas nucleares, anterior ao pronunciamento do Presidente Reagan de 1983, criando o SDI.

A União Soviética sempre acreditou que a sua defesa estratégica contra armas nucleares era um objetivo de extrema importância. Os Estados Unidos concordaram e praticaram o principio de aceitar a vulnerabilidade em beneficio do principio da estabilidade do confronto nuclear.

Como dissemos acima, a doutrina estratégica soviética sempre enfatizou a necessidade de estar preparada para a sobrevivência e se possível vencer a guerra nuclear.

Esta diferença básica de pontos de vista influiu no nível dos programas de defesa para a hipótese de um conflito bélico. Por exemplo, nos anos 70 os Estados Unidos virtualmente interromperam seu programa de interceptação de armas nucleares (o chamado programa de construção de mísseis antimísseis e desmontaram as instalações já implantadas, em obediência ao Acordo de Limitação dos Sistemas Mísseis Anti balísticos, 1972, enquanto a União Soviética continuou a modernização do seu sistema de defesa antimíssil incluindo a implantação, em seu território, de novos conjuntos de radar e de milhares de mísseis terra - ar, assim como numerosa fabricação de aviões interceptadores.

No tocante à defesa civil o programa norte-americano é bastante modesto, tratando quase que apenas da proteção contra as calamidades naturais. O programa de defesa civil soviético envolve o treinamento de milhões de pessoas para os procedimentos em caso de ataque nuclear, assim como a construção de milhares de abrigos à prova de explosões, nucleares. Somente o programa soviético de deslocamento dos centros de governo e de comandos em caso de emergência nuclear custou, nos últimos 25 anos (Relatório do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, 1985), uma importancia acima de 56 bilhões de dólares (duas vezes mais do que os Estados Unidos pretendem despender com o SDI até 1989).

Os soviéticos também estão avançados na área da tecnologia do laser. Os programas de pesquisa de energia dirigida na União Soviética são conhecidos desde os meados dos anos 60 quando estavam mais adiantados que os Estados Unidos. No começo dos anos 70, os soviéticos revelaram um programa de pesquisa destinado a estudar a possibilidade da emissão de raios de partículas neutras dirigidas no espaço. Atualmente são conhecidos os programas soviéticos destinados a desenvolver as “armas emissoras de energia para a defesa estratégica, incluindo O míssil balístico defensivo, os mísseis anti bombardeiros (terra - ar) e as armas anti-satélites”.

Apesar das dificuldades em se obter informações precisas, sabe-se que os soviéticos estão desenvolvendo um arsenal de armas laser que combinadas com seus engenhos defensivos já existentes poderão vir a integrar, em 1990, o sistema de defesa estratégica do seu território.

Paralelamente, os soviéticos estão pesquisando variados tipos de armas laser para emprego contra aviões. Outro tipo de armas laser, que esperam tornar operacional em 1990, destinam-se à instalação a bordo de navios para sua própria defesa. Há estudos avançados para a instalação de armas laser em aviões para emprego contra mísseis cruzeiros (cruise missilesl, satélites e submarinos lançadores de mísseis balísticos.

Os soviéticos, no decorrer dos últimos 30 anos, vêm revelando preocupações muito maiores com a proteção de seu território contra os efeitos de uma guerra convencional ou nuclear do que os Estados Unidos.

A doutrina soviética de guerra nuclear prevê a combinação das armas ofensivas e do sistema defensivo para assegurar a sobrevivência do país.

No campo das novas armas de energia dirigida, os soviéticos, igualmente, desenvolvem ativamente suas pesquisas. Pretendem, em 1990, poder contar com um sistema de defesa estratégica combinando as armas convencionais potencializadas pela eletrônica e pela informática e as novas armas de energia dirigida.

Resultado do teste com o emissor Mlracl

Considerando-se que os soviéticos dispõem de conhecimentos científicos, progressos tecnológicos e recursos materiais para desenvolver um sistema defensivo do tipo apresentado pelos Estados Unidos pergunta-se: porquê a reação determinada e firme de Moscou ao projeto norte-americano?

Vários argumentos vêm sendo alinhados pelos especialistas norte-americanos para justificar a reação soviética. O mais importante, entre outros, é que depois de um tremendo esforço tecnológico e financeiro (com sacrifício de seus programas de Índole social), os soviéticos alcançaram uma paridade com os Estados Unidos, no campo da ameaça nuclear. Isto os permitiu, politicamente, modificar a posição vexatória suportada por ocasião da crise cubana de 1962. Hoje, com igualdade de forças e de grau de ameaça se envolvem nos problemas mundiais como desejam Afeganistão, América Central, sem receio de serem intimidados.

Esta situação de paridade política e estratégica poderá desmoronar-se, se a defesa estratégica na base de armas de energia dirigida for capaz de desequilibrar a favor dos Estados Unidos O grau de ameça nuclear.

Para a União Soviética, construir um novo sistema defensivo baseado na tecnologia espacial de ponta representaria um novo tremendo esforço financeiro, com profundas repercussões no programa sócio – económico já tão defasado do Ocidente Capitalista.

Seria prolongar o “gap” humilhante de padrão de vida entre a sociedade capitalista ocidental e a socialista soviética.

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