Política e Estratégia

20 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen

Segundo Maurice Duverger, a Política para uns, é a ciência do Estado, enquanto para outros é a ciência do Poder. Esta dicotomia, para nós, não existe de forma nítida. O poder é inerente ao Estado, tanto assim, que o Estado inexiste sem o poder.

Buscando conceitos entre os nossos pensadores da Ciência Política ou da Ciência do Estado, encontramos que Themistocles Cavalcanti diz que a “Ciência Política trata dos fenômenos que se enquadram na organização, na estrutura, no funcionamento do Estado e no exercício do poder”.

A Estratégia é uma decorrência da Política, razão porque para conceituá-Ia devemos antes conceituar a Política. Esta é a arte ou ciência de governar. E a concepção de como governar o Estado. A Estratégia é a arte de executar a Política. Compreende a ação, ou as ações, necessárias para alcançar os objetivos da Política. Resumindo diríamos: Política é a concepção de governo e Estratégia é a ação decorrente desta concepção.

Política é o que fazer; Estratégia, como fazer.

Neste quadro de conceitos vamos incluir a Geopolítica e a Geoestratégia. A primeira é uma parte da Ciência Política inspirada nas realidades geográficas do Estado. A Geoestratégia é a Estratégia aplicada às áreas privilegiadas pela Geopolítica (às áreas consideradas criticas).

Sendo a Estratégia a aplicação de uma Política, haverá uma Estratégia para cada Política Geral (nacional), Econômica, Psicossocial e Militar. Sendo a guerra, segundo conceito de inúmeros autores, a Política impulsionada na busca de seus objetivos por meios violentos Rousseau, Clausewitz, Jomini, Mahan, Mackinder, a Estratégia Militar é arte de conduzir a Guerra.

Considerando a Estratégia decorrência de uma concepção política, assim a compreendendo, podemos afirmar que a Política escolhe objetivos para atender aos interesses do Estado (ou da aliança de Estados) e a Estratégia seleciona meios e estabelece prioridades para alcançar estes objetivos.

Houve época em que se fazia confusão sobre a relação de interdependência entre Política e Estratégia. Desde o início do século XIX essa confusão não é mais aceitável. Senão, vejamos o pensamento dos principais mestres da Estratégia. Não há dúvida que foram Clausewitz no século XIX, Liddell Hart e Beaufre no século XX. O primeiro teve como campo de observação as inovações trazidas ao campo da Estratégia pela Revolução Francesa e as guerras napoleônicas. Sua genialidade está em ter sabido sintetizar e traduzir em idéias gerais as constantes estratégias produzidas por essa época de inovações no campo de guerra; inovações relacionadas muito mais ao âmbito das transformações políticas e à genialidade de Bonaparte do que à evolução da técnica de produção de engenhos bélicos.

Liddell Hart, participante da Grande Guerra e da II Guerra Mundial, retirou das observações colhidas nos campos de batalha desses dois conflitos maiores os ensinamentos que soube traduzir numa doutrina estratégica lógica e coerente.

O General Beaufre colocou no quadro da Estratégia moderna os efeitos de uma nova e terrível arma - a bomba atômica, a arma nuclear.

Desejando apoiar o nosso conceito inicial de que a Estratégia é uma decorrência da Política, vamos alinhar alguns pensamentos destes três clássicos da Estratégia.

• Clausewitz -”A guerra é a continuação da Política por outros meios.”

• Liddell Hart -”A melhor Estratégia é aquela que atende ao objetivo político por meio de hábeis demonstrações de força, pela mobilidade, eventualmente sem travar a batalha.”

• General Beaufre -”A guerra total é concebida em nível de Política governamental, que fixa os domínios das Estratégias militar, política, econômica e diplomática.”

Assim estabelecidos os campos doutrinários da Política e da Estratégia moderna, baseados no pensamento dos três mestres que mais se distinguiram no estudo da Estratégia nesses últimos 200 anos, faremos algumas considerações que nos darão uma visão mais ampla do campo de estudo da Estratégia militar contemporânea.

Desde o início observamos que a palavra estratégia, de origem grega “estratego”, era o general grego comandante de exércitos, do ponto de vista semântico vem evoluindo através dos tempos. Antes do século XVIII esta palavra se referia sempre à arte dos generais, tinha um sentido puramente militar.

A partir da Revolução Francesa de 1793 e das campanhas napoleônicas que se seguiram, as guerras que até então eram objeto de decisões fechadas de gabinetes e dependentes da capacidade dos tesouros reais em contratar exércitos mercenários, formados muitas vezes por profissionais estrangeiros, transformaram-se em guerras nacionais, com o povo em armas e a participação de toda a Nação. Esta transformação política e social levou Clausewitz a escrever:

“As coisas mudaram com a eclosão da Revolução Francesa … ”

Uma nova força que ninguém antes poderia imaginar fez sua aparição em 1793. A guerra repentinamente transformou-se numa preocupação do povo inteiro, e de um povo de 30 milhões de habitantes referindo-se à França. A participação do povo na guerra fez entrar a Nação inteira em um jogo que antes era objeto de preocupação apenas do gabinete e de exércitos mercenários. Desde a I, deixou de haver limites para a guerra. Antecipava Clausewitz os conceitos de guerra total que 100 “nos mais tarde foram teorizados pelo General alemão Ludendorf.

A guerra nacional envolvendo a Nação inteira na sorte de conflitos bélicos produziu uma generalização do conceito de estratégia que, de arte de conduzir as batalhas, passou a ser a arte ou ciência de conduzir a Nação para a vitória. Éo próprio Clausewitz quem antecipa esta evolução do conceito de estratégia quando escreve:

“A guerra não mais pertence ao domínio das artes ou das ciências, mas se relaciona com a existência social. Ela é um conflito entre grandes interesses decididos pelo derramamento de sangue. Parece-se mais com a Política.”

Destes pensamentos de Clausewitz, que viveu alguns anos na Rússia Imperial onde teve uma cátedra de Professor em Ciência Política e Estratégia, Lenine extraiu o seu conceito de guerra permanente. Parafraseando Crausewitz, Lenine escreveu sua célebre frase de que “a Política é a continuação da guerra por outros meios”.

Como o próprio Clausewitz previra, no futuro haveria, além da estratégia militar, estratégias correspondentes aos campos de generalização - do conflito bélico -político, econômico, social e outros.

No pensamento militar moderno predominam três escolas principais sobre a Estratégia:

• estratégia de ação direta;

• estratégia de ação indireta,

• estratégia de dissuasão.

Cada uma dessas escolas tem o seu pensador principal. Clausewitz é o preconizador da primeira, Liddell Hart da segunda e o General Beaufre da terceira.

Embora Clausewitz tenha falecido em 1831 , Liddell Hart em 1970 e o General Beaufre em 1975, distanciados no tempo de um século e meio, as idéias de Clausewitz continuam atuais e, em grande parte, foram adotadas pelo grande pensador contemporâneo Raymond Aron. A este respeito vale aqui reproduzirmos o conceito do militar francês, Coronel Guv Doly, Professor da Escola de Guerra, no seu livro Strategíe France Europe: “Fora do acontecimento extraordinário que constituiu o aparecimento da arma nuclear em 1945, nada realmente de novo aconteceu no campo da Estratégia.”

Segundo Karl von Clausewitz, no seu livro clássico Da Guerra, “o objetivo político da guerra é destruir as forças militares do inimigo e conquistar o seu território”. Como Estratégia militar para alcançar este objetivo político o escritor alemão prescreve -”travar a batalha, não há outro meio”. Como princípios estratégicos do pensamento de Clausewitz encontraram: “concentrar as forças e lançá - Ias contra a massa principal do inimigo, de sorte a chegar à decisão pela batalha, se possível em uma só ação e um só momento. É a chamada Estratégia de ação direta, contra as forças principais do inimigo (o seu centro de gravidade), realizando, se possível, a surpresa estratégica. Estudando as campanhas de Napoleão, Clausewitz seleciona como fatores de surpresa estratégica a mobilidade, a velocidade, as ações diversionárias e a divulgação de informações falsas, visando a iludir o inimigo sobre o ponto de aplicação do golpe decisivo.

Analisando a aplicação dos princípios estratégicos de Clausewitz na guerra contemporânea, o Coronel Guy Doly, já citado, argumenta que no quadro do conflito militar moderno, entre as superpotências e as grandes potências, o chamado conflito Leste Oeste, em que se confrontarão as forças da OTAN e do Pacto de Varsóvia, o objetivo de destruição das forças inimigas e ocupação de seu território, buscando o seu centro de gravidade, não parece mais real, porque isto imporá um preço excessivo que nenhum dos contendores tem condições de pagar. Vamos ver, quando analisarmos a Estratégia de ação direta, esta impossibilidade com os meios bélicos atuais que possuem ambos os lados rivais, de se chegar a uma destruição maciça, como defende Clausewitz, sem incorrer no risco certo da destruição mútua. A resposta será tão violenta e mortífera como o ataque.

Fora do quadro do conflito Leste-Oeste, nas guerras locais e regionais, na chamada guerra convencional, poderemos, até certo ponto, considerar válidos os princípios estratégicos clausewitzianos, desde que um dos lados seja capaz de concentrar superioridade de meios e aplicá-los de surpresa no centro de gravidade dos dispositivos de forças inimigas.

Passaremos agora a analisar as idéias principais de outro clássico da estratégia, o inglês Liddell Hart, que, ao contrário de Clausewitz, é o defensor da chamada Estratégia de ação indireta, uma variante da estratégia de ação direta.

Liddel Hart foi o primeiro autor a integrar os conhecimentos das duas guerras (de 1914-1918 e de 1939-1945). Os dois fatores que mais influenciam nas operações terrestres nesses dois conflitos e vieram a influir na estratégia contemporânea foram o emprego do avião e do carro de combate, emprego experimental na Grande Guerra e maciço na II Guerra Mundial. Dessas inovações da tecnologia e da indústria bélica, o escritor inglês tirou duas conclusões estratégicas: da importância da aproximação indireta e da mobilidade na manobra estratégica.

A I Guerra Mundial, de que Liddell Hart foi testemunha, fora um massacre de quase quatro anos numa guerra imobilizada de trincheiras. Morreram 10 milhões de homens de ambos os lados. A chegada de meio milhão de norte-americanos, em 1917,comandados pelo General Pershing, conseguiu desequilibrar o impasse estratégico dando superioridade de meios aos aliados e obrigando os alemães de Guilherme II, o Kaiser, a procurar um armistício.

A I Guerra Mundial (1914-1918) marcou os primeiros ensaios de emprego da telegrafia, dos submarinos, do carro de combate e do avião. Estes dois últimos, ainda rudimentares, de reduzido peso e raio de ação, não foram instrumentos suficientes a alterar o im¬passe de equilíbrio estratégico que imobilizara s frentes. Mas, o desenvolvimento da tecnologia na fabricação de aviões e carros de combate mudou o ambiente estratégico da ” Guerra Mundial, iniciada propriamente com a invasão da Polônia em 1939. A blitz¬krieg alemã contra a França composta por enorme massa de carros blindados, apoiada por densas nuvens de aviões de combate, abriu o quadro estratégico característico desse conflito mundial.

A II Guerra Mundial caracterizou-se como uma guerra de movimento. A idéia de imobilizar as frentes de combate nas fronteiras, por meio das posições superfortificadas, as famosas linhas Siegfried (alemã) e Maginot (francesa), revelaram-se vã ilusão estratégica e desperdício. Em toda parte, no Pacífico, no Atlântico, na África do Norte, no continente europeu, o que caracterizou a guerra foram os movimentos estratégicos de grande envergadura, como as operações anfíbias na invasão do Norte da África, da Sicília, do Sul da França e da Normandia, reunindo imensa massa de meios marítimos, aéreos e terrestres, e, também, as operações dos Exércitos no Norte da África e na Europa. Nenhuma barreira física ou humana foi capaz de conter por muito tempo o poder de choque das massas de blindados, seguidas de forças motorizadas e apoiadas pela aviação de acompanhamento ao combate e de bombardeio. A observação aérea e a mobilidade facultavam a realização da surpresa estratégica sobre um flanco ou retaguarda.

Este quadro de guerra de 1939-1945 enriqueceu os conhecimentos estratégicos de Liddell Hart, que se tornou o principal analista e escritor militar de sua época. Sobreviveu por 25 anos ao final da última Guerra Mundial e durante esse período acompanhou atentamente o vertiginoso desenvolvimento da tecnologia militar e sua aplicação no campo da Estratégia. Produziu vários livros sobre a Estratégia militar, até á sua morte.

Na síntese de suas apreciações no pós-guerra de 1939-1945 Liddell Hart oferece-nos suas conclusões que contrariam os princípios fundamentais da Estratégia da ação direta de Clausewitz que, como vimos, preconizava “atacar com superioridade de forças e a violência máxima a massa principal das forças inimigas, procurando, para esta ação, a surpresa estratégica”.

Liddell Hart, no seu livro sobre Estratégia, editado em 1954, contraria o pensamento de Clausewitz e propõe como nova estratégia, a ação indireta, que pode ser assim traduzida:

“A Estratégia mais conveniente é a que permite conduzir a batalha da maneira mais vantajosa e muitas dessas condições vantajosas, se aplicadas, poderão conduzir ao desequilíbrio das forças do inimigo com um mínimo de combate; em síntese, a Estratégia perfeita, será obter a decisão pela derrota do inimigo e sua rendição sem combate.”

A Estratégia de ação indireta, assim exposta, procura tirar o máximo proveito da mobilidade, da velocidade e da surpresa oferecidas pela tecnologia militar moderna para desequilibrar a estrutura do dispositivo inimigo.

E, numa quase obsessão de virtuosidade estratégica, imagina até derrotar as forças militares inimigas pela simples manobra estratégica.

É interessante observar-se neste ponto de nossas considerações que Lenine, um discípulo de Clausewitz em assuntos estratégicos, colocando o seu ingrediente político-revolucionário na Estratégia, já havia escrito: “A melhor Estratégia consiste em retardar o início das operações militares até que a desagregação moral do inimigo nos permita, facilmente, desferir-lhe o golpe mortal.”

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