Sugestões para uma Estratégia Militar Brasileira
19 Outubro, 2009 / K-BOX Cepen
Sendo a Estratégia uma decorrência da Política, é nesta que teremos que buscar os seus fundamentos.
A Política militar, fonte inspiradora da Estratégia militar, terá sua base na avaliação dos antagonismos internacionais existentes ou potenciais, capazes de gerar uma situação de necessidade de emprego da força para a preservação da soberania ou de superiores interesses nacional.
Onde se encontram, principalmente, as fontes de antagonismos ‘internacionais? Nas reivindicações fronteiriças ou territoriais; na disputa de áreas de interesse econômico; na disputa ideológica; nos sonhos megalomaníacos de certos ditadores ou líderes carismáticos,
A História nos ensina que essas fontes de antagonismo produzem nas Nações um “espírito” de satisfação ou de insatisfação, facilmente explorado e conduzido por líderes carismáticos.
Veja - se, por exemplo, o Império Russo e agora a União Soviética preservarem durante dois séculos sua insatisfação face às dificuldades de seu território europeu em abeirar- se dos lugares quentes. Veja- se a Alemanha desde o reino da Prússia até o final da II Guerra Mundial viver a insatisfação de possuir um território pequeno e mal posicionado. Ambos os exemplos têm sido geradores de conflitos internacionais permanentes e guerras sangrentas e obrigaram seus vizinhos a uma atitude permanente de defesa,
Em qualquer caso, entretanto, variando seus métodos de ação, luta por um mesmo fim - impor a sua vontade sobre os outros. Ai está a origem de todas as guerras que vêm manchando de sangue a história do planeta. Organizado em grupos, Nações, Estados, esta vontade natural de impor sua vontade transfere-se para as coletividades. Cabe aqui repetir o pensamento de Plauto: “O homem é para outro homem um lobo e não um homem.”
Segundo Sun Tzu, encarnando o tempo do povo chinês, a guerra deve ser conduzida sem sangue, se possível, e com um mínimo de destruição; pode ser longa, não importa.
Já Clausewitz, interpretando o temperamento alemão, prefere a guerra brutal e rápida. Jomini, contemporâneo de Clausewitz, suíço de educação francesa, em sua teoria sobre a guerra atenua a brutalidade do choque decisivo procurado pelo escritor prussiano, dando lugar, no palco bélico, com relativo peso decisório, às guerras de opinião, à guerra psicológica, à guerrilha.
Liddell Hart prefere combinar choque e movimento, com predominância deste.
O General Beaufre, pressionado pela violência crescente da ameaça nuclear, buscou na sua estratégia de dissuasão (deterrência). Uma contenção recíproca pelo medo.
O Presidente Reagan, em 1983, ao lançar o seu programa de guerra espacial, primeira tentativa de Estratégia defensiva contra a agressão nuclear, declarou solenemente que convocava a comunidade científica norte-americana, aquela mesma que produzira a arma nuclear, “para voltar, agora, os seus talentos para a causa da humanidade, oferecendo os meios para tornar essas armas impotentes e obsoletas”.
Entretanto, no decorrer desses dois e meio milênios, nem Sun Tzu, nem Clausewitz, Jomini, Beaufre, Liddell Hart ou Reagan apresentaram solução ao problema original da guerra, a “tendência natural do homem de querer impor a sua vontade”; ofereceram, sim, formas mais suaves ou mais duras de impô - Ia.
Nessas formas deverá ser encontrada a Estratégia militar, a arte de aplicar as forças e o instrumental bélico.
No decorrer do tempo, este entre militar que compõe as forças e este instrumental evoluiu tremendamente. O instrumental, as chamadas armas e engenhos bélicos sujeitos à transformação da ciência e da tecnologia, atingiu a alcances, potência destruidora e precisão de emprego inimaginável, particularmente neste século XX.
A cada inovação técnica aplicada às armas ou engenhos, deve corresponder uma redimensão da Estratégia. Os chefes militares e Estados-Maiores são obrigados a uma atualização constante de conhecimentos novos, a fim de não serem ultrapassados quando no campo de batalha terrestre, marítimo, aéreo ou espacial. Toda a defasagem entre a nova arma e a capacidade da força em utilizá - Ia tem custado um alto preço em vidas e bens às Forças e às Nações envolvidas em conflitos bélicos. Sobre este tema, o Marechal – de - Campo Michael Carver, no seu livro War Lords, analisando as baixas vultosas em efetivos e danos materiais resultantes da Grande Guerra (1914-1918), onde a perda em vidas humanas na Europa alcançou a elevada cifra de 10.000.000, a maioria massacrada numa guerra de trincheira, de inércia, de fricção, carente de imaginação e sem sentido, diz o seguinte:
“O século XX trouxe novas dimensões à guerra”. Neste livro eu procurarei analisar como as maiores figuras de chefe militar das duas guerras mundiais da primeira metade deste século procuraram exercer o comando, dirigir as operações, em condições que lhes eram estranhas, com as quais não estavam familiarizados, particularmente no que se refere à Grande Guerra.
O passo de evolução da técnica provocou mudanças rápidas no cenário bélico e a tendência do profissional militar é de ser conservador no período entre guerras, por falta de oportunidade de experimentar por si mesmo as inovações surgidas. Durante as últimas guerras, as mudanças foram tão rápidas que se tornou difícil a qualquer uma elas se adaptar na primeira hora, mas, acontece que se adaptar imediatamente é imperioso a todos os participantes.
As guerras aceleram o processo de desenvolvimento tecnológico. Novas armas e novos engenhos chegam superpondo-se aos antigos, forçando um período de adaptação. As armas novas provocam o surgimento de novas técnicas-protetoras que são obrigadas a conviver lado a lado com as velhas armas e técnicas ultrapassadas. O veículo a motor e o avião foram ambos empregados na Guerra de 1914, mas, até o final da ” Guerra Mundial, a massa dos transportes das forças terrestres alemãs e soviéticas era puxada a cavalo.
Mesmo na idade da arma nuclear, o fuzil e a baioneta originária do pique estão ainda em serviço.
As figuras de principais chefes militares analisadas neste livro foram comandantes de grande “responsabilidade”.
Mais adiante o Marechal Carver chega á raiz do problema do descompasso entre a evolução da tecnologia aplicada á guerra e a capacidade dos chefes militares em empregá - Ia oportunamente:
“As condições em que se desenvolveram as operações na I Grande Guerra revelam que os seus participantes foram surpreendidos pelas inovações. Os meios de transporte disponíveis, as curtas distâncias entre a base logística e o front permitiram o desdobramento de enormes efetivos e montanhas de materiais. O suprimento requerido em grandes quantidades incluía itens inteiramente novos: o transporte motorizado e todas as suas necessidades de combustíveis e manutenção, o carro-de-combate, o avião, a radiotelefonia, o submarino, tudo isto sendo usado pela primeira vez numa guerra européia. As novas versões da metralhadora, das minas, dos gases de combate e dos explosivos. Todas estas novidades acrescentaram complicações não apenas aos comandos operacionais, mas também ao apoio logístico e á mobilização industrial.
“Não resta dúvida, hoje em dia, que os principais chefes militares da I Grande Guerra não foram capazes de captar a correta potencialidade dessas novas armas e engenhos”
Agora, algumas palavras sobre a importância do estudo da Estratégia militar.
Analisando os confrontos bélicos que se sucederam à II Guerra Mundial, Argélia, Indochina, Cuba, Berlim, OTAN versus Pacto de Varsóvia, o General francês André Beaufre, que no dizer de Liddell Hart era, então, o maior estrategista contemporâneo (o escritor inglês escrevia em 1963), assim se expressava:
“Minha conclusão é que, em grande parte, a ignorância da Estratégia nos tem sido fatal.
As razões desta ignorância são interessantes. Eu as indicarei de passagem neste estudo. Mas o que é importante de se destacar é que o desapreço pela Estratégia, de parte dos vencedores de 1918 provinha do fato que não se lhes havia ensinado a Estratégia, mas uma falsa estratégia apresentada como a alfa e o ómega da ‘arte’.
Na verdade, a Estratégia não deve ser uma doutrina única; mas um método de pensamento que permita classificar e hierarquizar os acontecimentos de depois procurar os processos de ação, os meios eficazes. A cada situação corresponde uma estratégia particular; toda estratégia poderá ser a melhor para certas conjunturas possíveis e a pior para outras conjunturas. “Esta é a verdade essencial”.
Dissemos acima que o móvel principal das guerras é a vontade de superação. Segundo vários clássicos, a guerra é uma luta entre duas vontades; vence a mais forte.
Quais seriam as características desta vontade do mais forte?
Não há dúvida que ela tem que ser polarizada no chefe e transmitida aos comandados. Esta vontade mais forte do chefe deve se traduzir em firmeza de caráter e inteligência. Ambos os valores integram o contexto da Estratégia militar - a arte de empregar os meios, o instrumento bélico.
Outra forma de atingir a vontade é a infiltração ideológica enfraquecendo as convicções e a disposição para lutar. E o método aplicado pela Estratégia do comunismo internacional que se apresenta encoberta sob vários matizes e disfarces. A este tipo insidioso de guerra é preciso opor as convicções democráticas irremovíveis e sempre vigilantes dos quadros e tropa de nossas Forças Armadas.
A característica fundamental da chefia militar permaneceu imutável através dos tempos. Tanto um General Sun Tzu, como um Alexandre da Macedônia, ou Eisenhower só foram vitoriosos porque superaram seus adversários em vontade e inteligência.
Numa versão mais moderna, o “talento do chefe”, de Que nos fala Clausewitz, se traduz em algo mais despersonalizado e mais institucionalizado o Comando.
Por Comando se compreende a pessoa do Comandante, o Estado Maior e outros órgãos de supervisão. Não resta dúvida que a pessoa do Comandante é a principal peça do Comando.
Para Clausewitz, o Comandante deverá possuir o “genius” para a guerra. Por isto se entendendo ser possuidor de “uma alta capacidade para empregar os meios à sua disposição”.
A importância da personalidade do chefe na concepção e aplicação da Estratégia é de tão alta valia, que se torna essencial, em toda Força Armada, a cuidadosa formação e seleção daqueles que se destinam aos comandos. .
O aperfeiçoamento das virtudes da vontade e da inteligência terá que ser feita durante toda a carreira. Exige estudo, exercício de comando, gosto pela pesquisa profissional, interesse pelas inovações da tecnologia e suas conseqüências táticas e estratégicas.
Na Estratégia militar predomina entre os fatores considerados-um dos efetivos, da tecnologia, da organização, do moral dos combatentes e da população civil-o valor do chefe. Ele projeta sua personalidade ao conjunto, instila confiança, dirige a inteligência estratégica.
Ao lado da excelência do chefe, há de existir uma cadeia de oficiais do Estado-Maior e de comandos igualmente firmes e aptos. A História nos mostra que o Almirante Nelson, Frederico, Napoleão, Eisenhower não teriam seus nomes consagrados pela vitória se, além de suas excepcionais qualidades de chefe, não tivessem a seu serviço assessores e executantes capazes de cumprir suas ordens.
Na guerra como em todo o empreendimento maior, no passado, no presente e no futuro, em que pese a mais avançada tecnologia, o sucesso dependeu, depende e dependerá do homem.
O pensamento de Spinoza -”Nada mais importante ao homem que o próprio homem” - impera através da História, na paz e na guerra, e projeta-se com toda a força no futuro.

