A importância do Atlântico Sul
2 Fevereiro, 2010 / João Baptista de Matos
As vias marítimas de comércio internacional são importantes para os países ribeirinhos de cada um dos oceanos ou mares, mas são também importantes para os outros, principalmente para aqueles que, do ponto de vista sócio-económico, mais dependem do exterior. Quanto maior a economia maior a dependência do exterior, e daí o facto de as grandes potências mundiais serem as principais utilizadoras dessas mesmas vias.
Como via marítima, o Atlântico Sul ganhou grande importância com a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, que apesar de aumentar a distância, diminuiu o número de intermediários e o valor do frete, permitindo trazer o negócio das especiarias para Portugal, retirando-o aos mercadores venezianos e árabes. A substituição de Portugal e Espanha, como as grandes potências marítimas, pela Inglaterra e Holanda, não diminuiu a importância do Atlântico Sul. Mesmo a rota do chá e do algodão, por exemplo, que até fins do século XIX, nos clippers, aproveitando os roaring forties, vinha da Ásia e da Austrália, passava pelo Cabo Horn e, através do Atlântico, seguia para a Europa.
Essa importância só foi diminuída após a abertura do Canal do Suez e mais tarde do Canal do Panamá mas voltou a aumentar, em meados dos anos cinquenta do século passado, com a nacionalização do Canal do Suez e dos problemas que daí advieram. Este cenário resultou na procura de novas e mais seguras rotas de evacuação do petróleo, que apesar de aumentarem a distância a percorrer, obrigavam a diminuir o valor do frete e isto só era possível com o aumento da capacidade e por conseguinte das dimensões dos petroleiros. A solução foi a criação dos VLCC, que tinham como único inconveniente o não poderem utilizar o Canal do Suez e muitos dos portos da Europa e dos Estados Unidos, obrigando ao transbordo ou à descarga em offshore.
Na realidade, o Atlântico Sul é um imenso corredor sem estreitas passagens estratégicas ou pontos de estrangulamento (chokepoints), esses “calcanhares de Aquiles geográficos da economia global” d, por onde passa a grande quantidade de petróleo que, vinda do Médio Oriente, transita principalmente para a América do Norte. De frisar que, ainda hoje, de todo o petróleo é transportado nos VLCC. Também algum tráfego petrolífero, vindo do mesmo Médio Oriente, segue para a Europa e para a América do Sul, bem como o originário da costa ocidental de África, que segue para os mesmos destinos, para além do que, hoje em dia, se destina à Ásia, principalmente à China.
Também importante no Atlântico Sul, vindo de muitas origens para diferentes destinos, tanto de países ribeirinhos como de outros, é o tráfego de matérias-primas – como carvão, ferro e bauxite – e produtos agrícolas – tal como o açúcar, cereais, etc. Estas matérias-primas são transportadas a granel em navios especializados. Também o transporte de produtos manufacturados, tanto de bens duráveis – por exemplo, maquinaria e veículos motores – como de consumíveis, grande parte já contentorizados, de forma a diminuir as estadias nos portos, aproveitam o Atlântico Sul para o seu transporte.
Apesar de não ter grandes constrangimentos e de a considerarem como uma zona estratégica secundária e periférica, esta importante via preocupa as grandes potências, nomeadamente as ocidentais, não só individualmente como também a sua organização defensiva, a NATO, que na sua denominação leva o nome do Atlântico Norte. Não é por acaso que os EUA acabam de criar o Comando África (Africa Command) com o objectivo de controlar as costas africanas do Atlântico, em contraponto ao Comando Austral (Southern Command) que controla as costas sul-americanas do mesmo oceano, e também não é por acaso que desde há uns anos apoiam a formação de exércitos africanos. Por outro lado, a NATO iniciou exercícios conjuntos com e em Cabo Verde, na fronteira entre o Atlântico Norte, seu território natural e estatutário, e o Atlântico Sul, onde a exemplo do Afeganistão, poderá vir a actuar no futuro.
O Atlântico Sul foi palco de uma guerra, não declarada, entre britânicos e argentinos, pela posse das ilhas Malvinas ou Falkland, nome pela qual esta guerra ficou conhecida. As dificuldades logísticas para os britânicos mostraram-se enormes, já que não conseguiram portos e aeródromos abertos na área para permitir o reabastecimento das suas forças navais e aéreas. Na realidade, a maioria dos governos sul-americanos mostraram simpatia pela causa argentina, ou optaram por uma neutralidade total, que na prática prejudicava os britânicos. No entanto, a intervenção dos EUA, nomeadamente através da abertura do acesso a stock de armamento, combustível e meios de comunicações, depositados na ilha de Ascensão, permitiu minimizar o problema para os britânicos, tendo possibilitado a estes ganharem a guerra.
Mas para além da enorme importância como via marítima, o Atlântico Sul esconde outras grandes riquezas. O pescado representa milhões de toneladas anuais para consumo humano e para as indústrias. As plataformas continentais são a grande fonte da pesca e apesar do seu sobre-aproveitamento esta ainda se mantém. A protecção desse riquíssimo legado é um problema complicado e dele falaremos mais adiante.
A segunda fonte de riqueza refere-se aos hidrocarbonetos, que implantados em grande escala, no fundo das plataformas continentais e nos seus limites mais próximos, são uma mais-valia para os países em cujas plataformas se encontram. O preço do petróleo e os avanços tecnológicos da exploração em águas profundas permite hoje a utilização económica dessas riquezas dos fundos atlânticos.
Também nos fundos oceânicos costeiros se encontram depósitos, aluviais ou não, de metais, como o ferro, o alumínio, o titânio e o crómio, bem como de pedras preciosas. Estes depósitos têm sido explorados esporadicamente, como foi o caso dos diamantes na costa da Namíbia.
Para além destes depósitos nas plataformas costeiras, encontram-se outros em maiores profundidades, mais conhecidos como nódulos. Formados ao longo de milhões de anos em camadas concêntricas sucessivas, são principalmente constituídos por manganês e ferro, com quantidades menores de cobre, níquel e cobalto. Pensa-se que a maior parte desses nódulos se encontram no leste do Brasil e na Bacia das Agulhas, a sul da África do Sul, mas muito provavelmente estarão espalhadas por outras áreas do Atlântico Sul. No entanto, as acumulações encontradas no Atlântico são mais pequenas e menos prometedoras economicamente que as encontradas no Pacífico.
Outra das utilizações das águas oceânicas é a da produção de energia, usando os efeitos das marés, ou das ondas ou mesmo as diferenças de temperatura das águas à superfície e em profundidade, para gerar electricidade.
Por último, há que referir o enorme potencial, em parte já explorado, principalmente nas costas brasileiras, da indústria do turismo e do lazer, nomeadamente da pesca desportiva, tanto de superfície, de terra ou de barco, como submarina; da navegação de recreio, tanto à vela como a motor; e das variedades de surf, tanto na sua forma pura, usando a rebentação, como com vela, usando o vento (windsurf), para além da utilização das próprias praias.
Relações Brasil – Angola
Este o Oceano que nos separa e que há séculos nos une. A história dos dois países, mas principalmente a dos dois povos há muito está ligada. Muito contra a vontade dos seus filhos, parte sem interferência de qualquer um deles, mas ultimamente de uma forma deliberada, consentida e com vantagens mútuas.
Quis o destino, ou talvez a visão estratégica e o conhecimento da realidade dos negociadores portugueses, que os territórios que hoje constituem o Brasil e Angola tivessem ficado colocados na mesma metade do Mundo que calhou a Portugal, conforme acordado no Tratado de Tordesilhas, com a Espanha, que entre ambos dividiu os mares e as terras do mundo de então, fossem estes conhecidos ou desconhecidos. A consolidação da descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, no mesmo ano, levou ao envio de importante armada, chefiada por Pedro Alvares Cabral que, como por acaso, “descobriu” o Brasil, quase vinte anos depois de Diogo Cão, ter passado por terras de Angola, no outro lado do mesmo oceano.
Antigas e Profundas
Mas nessa altura os interesses portugueses estavam virados para a Ásia e para as suas riquezas e ambos os territórios passaram para segundo plano, do qual o Brasil só sairia trinta anos depois após a criação das capitanias, e Angola alguns séculos mais tarde. A conversão do Pernambuco à produção açucareira arrastou uma consequente escassez de mão-de-obra barata, já que os jesuítas tinham conseguido leis e bulas que lhes concediam a liberdade dos índios, e portanto impediam a sua utilização como escravos. Esse facto levou à primeira ligação com Angola. Infelizmente a pior ligação possível, assente numa das mais terríveis formas de exploração do homem pelo homem – a escravatura, na altura, aceite por muitos como normal e defensável.
Desde então e até à sua abolição, milhões de africanos, incluindo angolanos, mas sendo a maioria proveniente da Região do Golfo da Guiné, foram transportados, em condições sub-humanas, para o Brasil, onde serviam como trabalhadores rurais e domésticos. Mesmo após a sua libertação, continuaram a ser descriminados na educação, no emprego e na habitação. Mas são esses mesmos africanos que, contra tudo e todos, com a sua alegria, a sua música, a sua dança e as suas práticas religiosas, definiram e definem, em grande parte, a vida cultural do Brasil.
Mas foi essa mesma escravatura que esteve na base da consequente aproximação do Brasil a Angola, numa altura em que ambos eram ainda colónias de Portugal. A ligação das coroas de Espanha e Portugal levou a que os territórios deste tivessem sido atacados e tomados por inimigos do Império Espanhol. Assim os holandeses atacaram e, durante cerca de um quarto de século, ocuparam parte do território brasileiro, ao mesmo tempo que ocupavam também parte do angolano. Os “brasileiros”, sem a ajuda de Portugal, derrotaram e expulsaram os holandeses, em 1654, facto que provavelmente marca o nascimento do sentimento nacionalista brasileiro.
Libertado o seu próprio território, era necessário que a sua principal fonte de mão-de-obra barata também o fosse. Assim se explica que, com o esforço e o dinheiro de abastados homens do Brasil, fosse organizada, reunida, guarnecida com marinheiros, soldados, peças de artilharia, munições e mantimentos, uma armada que pudesse atravessar o Atlântico e chegasse a Angola, para que também daqui se expulsassem os holandeses.
Esta frota de navios era comandada pelo Almirante dos Mares do Sul e General das Frotas, Salvador Correia de Sá e Benevides, descendente dos fundadores do Rio de Janeiro, Mem e Estácio de Sá. Usando estratagemas invulgares, uma substancial dose de atrevimento e audácia nas decisões, o Almirante conseguiu, com uma correlação de forças negativa, impedir a unificação das forças inimigas obrigando à sua rendição por partes, algumas das quais superiores ao total das suas forças, como por exemplo os holandeses, aquartelados nas fortalezas quase intactas de S. Miguel e Nossa Senhora da Guia, que se renderam aos 600 homens de Correia de Sá.
Mais Próximas
Séculos depois, já em meados do século XX, a história seguinte começou no Atlântico Norte, tinha fim previsto em Angola, terminou no Brasil, mas teve enormes e profundas repercussões no futuro dos angolanos. Um opositor ao regime ditatorial português de Oliveira Salazar, oficial do Exército, antigo inspector das colónias, grande conhecedor de Angola, da qual descreveu as riquezas cinegéticas, o Capitão Henrique Galvão, comandou uma força que se apoderou e desviou o paquete português “Santa Maria”, tornando-o num precursor dos futuros “piratas” que, nas décadas seguintes, desviaram dezenas de navios e aviões por esse mundo fora.
A ideia que então espalhou foi a que Galvão quereria vir com o navio, entretanto rebaptizado de “Santa Liberdade”, para Angola e daqui iniciar algum outro tipo de luta contra o regime salazarista. A toda-poderosa armada estado-unidense impede-o de levar a cabo os seus intentos e obriga-o a rumar ao Brasil, mais concretamente ao porto de Recife, onde se entrega e será bem recebido pelos representantes do regime progressista de Jânio Quadros.
Se a história inicial por aí se ficou, a angolana iria então começar. A presença de jornalistas estrangeiros em Luanda, para cobrirem o evento, levou os nacionalistas angolanos a aproveitar o momento para lançar o processo de luta armada, esgotadas que estavam todas as tentativas pacíficas de se afirmarem. O assalto às cadeias de Luanda, a 4 de Fevereiro de 1996, iniciou a luta armada de libertação de Angola que terminou anos depois, com a Independência, em Novembro de 1975.
E é neste mesmo dia que surge o próximo episódio da ligação Angola-Brasil – a primeira história com os dois países independentes, com a vontade e os interesses de ambos. Em 1975 com o troar dos canhões da batalha eem Quifangondo como pano de fundo, o Dr. Agostinho Neto, presidente do MPLA, proclamava “perante África e o Mundo” a independência de Angola.
Mas logo de imediato receberia a primeira manifestação de reconhecimento internacional. Esse reconhecimento vinha do outro lado do Atlântico, dado pelo governo do General Ernesto Geisel, considerado como uma decisão fundamental “para conferir legitimidade à acção diplomática brasileira, principalmente para eliminar percepções internacionais de que o Brasil representaria interesses norte-americanos.”Para Angola essa decisão constituía uma base importante de legitimidade para o reconhecimento por parte de outros países da comunidade internacional. Este foi o primeiro passo, outros no entanto se seguiriam…
Actuais
Qual o estado da actual cooperação entre os dois países? Muitos projectos têm vindo a ser implementados nos mais diversos domínios, quer pela cooperação bilateral, quer na área institucional. fEis alguns dos exemplos:
• Na Agricultura – acordos nas áreas da extensão rural, e na investigação agronómica e veterinária;
• No Ambiente e Urbanismo – nas áreas da legislação e educação ambiental, caracterização de recursos naturais e áreas protegidas;
• Na Educação, Ciência e Tecnologia e Formação Profissional – um importante programa com o nome de “Escola para Todos”, cooperação científica e de tecnologias, programas de pós-graduação, colheita de dados via satélite, cooperação na formação profissional;
• Na Justiça – Acordos sobre assistência judiciária mútua e sobre extradição.
No que se refere ao investimento privado e publico-privado poder-se-á referir o primeiro e mais importante projecto–a barragem hidroeléctrica de Capanda, onde várias empresas brasileiras, em cooperação com empresas angolanas, desenvolveram a maior e mais importante obra de engenharia realizada em Angola após a independência nacional. Actualmente, as duas turbinas em funcionamento permite também a regularização do caudal do médio Kwanza (maior rio que nasce e desagua em Angola), evitando a inundação das terras a jusante de Cambambe, e a albufeira vai garantir o surgimento do pólo agro-industrial de Capanda.
Por outro lado, este projecto viabiliza a construção de sete barragens a jusante e permite também a interligação com os sistemas centro e sul do país, o que vai facilitar a distribuição do potencial energético pelo país. Existem outros projectos de natureza idêntica, uns mais avançados do que outros, nomeadamente nas áreas de:
• Construção e Urbanismo – construção de condomínios, shoppings, e desenvolvimento da área de Luanda Sul;
• Águas e Saneamento – programa de reabilitação da rede sanitária de Luanda; melhoramento do abastecimento de água à população de Luanda e Benguela;
• Irrigação – projectos de canais de irrigação;
•Mineração – projectos de pesquisa, prospecção e exploração de diamantes e metais básicos;
• Petróleo – programas de pesquisa e exploração offshore.
A título meramente exemplificativo e sem querer tecer juízos de valores nem particularizar em excesso, a Petrobras, trabalha em Angola, onde já participou em vários projectos de prospecção e exploração de petróleo, nomeadamente nas águas rasas na Bacia do Baixo Congo, no Bloco, e associada na exploração em águas profundas, no Bloco Na década de 80, colaborou num programa de treino para quadros angolanos da indústria petrolífera, denominado Proquadros. Também são conhecidas as suas acções humanitárias, no apoio social e na formação profissional.
O Futuro
Se este foi o passado e o presente, como vai ser ou como deverá ser o futuro? Se nos tempos difíceis era assim, como deverá ser nos próximos e provavelmente mais estimulantes tempos? Não sejamos demasiado optimistas. Porém, após o nosso passado recente, também não podemos ser pessimistas. Temos de acreditar no futuro e na nossa capacidade de o definir, nomeadamente de apontar metas.
Num mundo globalizado, como é o de hoje, muitas das soluções estão definidas, poucas estão implementadas. Muitos dos organismos e das instituições que as poderão levar avante já existem, mas ainda não funcionam como deveriam. O desejo e a vontade existem, mas o conhecimento, a experiência e a prática de o levar a cabo estão longe de estar rodadas.
Devemos ser ambiciosos, mas temos de ser pragmáticos, conhecer a realidade, planificar com cuidado, definir etapas, dar passos cuidadosos mas seguros, controlar e atempadamente corrigir os erros. A agenda deve ser nossa, mas tem de ser rigorosa e ao mesmo tempo flexível para poder suportar atrasos que inevitavelmente irão surgir, não devendo em caso algum queimar-se etapas ou deixar correcções para depois. O tempo é importante mas o fazer bem é ainda mais importante.
Ao procurarmos material para a última parte deste artigo deparámo-nos com um documento recente, mais concretamente de 2006, produzido pela Cimeira de África:
– América do Sul e intitulado “A Declaração de Abuja”. Nesse documento está espelhada grande parte das ideias que achamos deverem ser objecto da cooperação entre Brasil e Angola. Iremos citar alguns passos do Preâmbulo desse documento:
“A cooperação entre as duas regiões deve assentar no engajamento com: o multilateralismo, o respeito da lei internacional, a democracia, e a observância dos Direitos Humanos e da Lei Humanitária; o desarmamento, a prevenção e o combate ao terrorismo, o combate ao tráfico ilícito de armas ligeiras e munições, a luta contra o tráfico humano e de drogas; a não proliferação de armas nucleares e outras de destruição massiva; a procura do desenvolvimento sustentável, acompanhado pela justiça social, a erradicação da fome e da pobreza, e a protecção do meio ambiente.” Assim, uma possível linha de actuação passa necessariamente pelo reforço e pela consolidação da cooperação institucional e estratégica Sul-Sul, enquadrada por sua vez no ambiente institucional da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e com uma dimensão bilateral, que pudesse acomodar os interesses e as necessidades específicas do Brasil e de Angola. É nesse quadro que talvez alguns dos problemas mais prementes – tais como a erradicação da pobreza, a educação e a saúde – poderiam ser abordados pelas autoridades competentes.
Uma outra linha de análise, passa pela reflexão em torno das causas que podem fazer perigar a segurança dos Estados e, naturalmente, das populações, como é o caso do terrorismo, do tráfico de armas, e da proliferação de armas de destruição massiva.
As iniciativas para o seu combate são fundamentais para se conseguir a Paz, como, por exemplo, era proposto pela Resolução da Assembleia-Geral das Nações Unidas, Outubro de 1986, na qual se declarava o Atlântico Sul como uma Zona de Paz e Cooperação (ZPCAS). Importante também é a cooperação multilateral ou bilateral, através dos organismos especializados das Nações Unidas, da MERCOSUL e do Conselho de Paz e Segurança da União Africana, e mesmo da CPLP.
“ACooperação Sul-Sul constitui um importante objectivo para ambas as regiões, especialmente no partilhar e transmitir as boas práticas nas áreas [...] da ciência e da tecnologia, da cultura, da educação e da juventude das respectivas regiões e daí a necessidade de acções conjuntas nessas áreas.” Entre outros aspectos que vaticinamos poder desenvolver- se em benefício comum de Angola e Brasil estão a educação, ciência e tecnologia. O intercâmbio entre universidades, institutos de investigação, professores e alunos, a concessão de bolsas de estudo, as facilidades para a realização de pós-graduações, nos mais diversos domínios, mas principalmente os virados para as ciências, as engenharias, as ciências agrárias, a medicina, as novas tecnologias de informação e comunicações (TIC) constituem uma mais-valia que o Brasil pode, eventualmente, colocar ao dispor de Angola. Considerando a língua portuguesa como um importante veículo de aproximação e cultura, pensamos inclusive na criação de pólos universitários brasileiros em solo angolano, no fornecimento de manuais escolares, livros didácticos e científicos, bem como cursos em suporte magnético para a utilização em ensino à distância e por correspondência. A língua comum permite também a criação ou o enriquecimento dos mercados livreiros dos dois países.
No domínio da saúde poder-se-ia, eventualmente, explorar formas de luta contra a malária, a tuberculose e a SIDA, bem como a fabricação de medicamentos genéricos, que permitem, de uma forma muito mais económica, combater algumas das referidas pandemias. Estas são outras tarefas que poderiam ser desenvolvidas no âmbito bilateral.
O controlo e a protecção da pesca poderiam merecer um cuidado especial, por exemplo no âmbito da cooperação no domínio da utilização de satélites de vigilância, a troca de informação, na preparação e equipamento dos instrumentos fiscalizadores das áreas costeiras e das ZEE (Zona Económica Exclusiva), incluindo a utilização de marinhas de guerra e ou guardas costeiras, bem como a utilização para esse fim de meios navais e aéreos. Outras actividades, ligadas ao pescado e que poderão, eventualmente, ser objecto de cooperação são a aquacultura e a criação de jacarés.
Outra área de cooperação poderia vir a ser a agricultura e a agro-pecuária, bem como as indústrias afins, já que são áreas geradoras de muitos empregos, garantem a segurança nutricional e alimentícia das populações e, mediante a formação, contribuem para a melhoria do nível de vida das populações rurais, fixando-as e evitando a sua fuga para as áreas urbanas, já de si sobrecarregadas com população excedentária. Também seria importante a troca de experiências no referente à reforma agrária, fugindo aos excessos e aos erros do passado.
Apesar de ser uma área onde já existe alguma cooperação e intercâmbio, o sector da energia eventualmente poderia vir a merecer um reforço da cooperação, acompanhando assim a tendência do mercado internacional, nomeadamente no domínio das energias renováveis: a hidroeléctrica, a solar, a eólica, a geotérmica e na utilização dos efeitos das marés e das ondas.
No domínio das indústrias vemos como possível a cooperação ligada à montagem de viaturas, ligeiras e pesadas, com a incorporação de componentes de origem angolana, o que permitirá um aumento do parque industrial; as indústrias de armamento e de equipamentos militares, com vista ao mercado africano; e, por último, a indústria de manutenção de aviões, de origem brasileira, o que pode facilitar a sua venda em países da África Central e Austral.
A cooperação no domínio das infra-estruturas de transportes
– portos, aeroportos, caminhos-de-ferro e estradas – é importante e com vantagens mútuas para os dois países, pois permite a entrada ao interior do Continente africano, sabendo-se que Angola dispõe de importantes portos – Luanda, Lobito, Namibe – e todos eles, dentro em breve, com ligações aos países vizinhos por via ferroviária, para além da rodoviária.
“A importância da cooperação Sul-Sul num mundo interdependente, que requer a expansão do conhecimento de cada um, o encorajamento da troca de informação e experiências, e trabalhando colectivamente em matérias de interesse mútuo.” k É com o trabalho colectivo em matérias de interesse mútuo
que pensamos terminar esta breve reflexão. Comecemos pela Cooperação Sul-Sul. A posição comum dos países do Sul e a constituição de frentes de negociação poderiam vir a constituir umas das grandes prioridades para que o Mundo desenvolva e ponha em funcionamento um modelo de trocas, dentro do sistema da Organização Mundial do Comércio, que seja favorável a todos e não somente aos países mais desenvolvidos.
“Um comércio multilateral, justo, regulado, transparente, e não discriminatório é essencial para permitir que os países em desenvolvimento beneficiem da globalização.” Uma frente comum dos Países em Desenvolvimento, ou pelo menos de alguns deles, para negociar Doha é fundamental. Importante também uma posição comum para discutir e conseguir a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde os países do sul devem ter mais vozes. Um Mundo melhor para os mais desfavorecidos também passa pela conquista deste desiderato.
Conclusão
Brasil – Angola: uma relação antiga, profunda, actual e com um futuro que constitui um desafio promissor, vai pôr à prova a nossa capacidade de deixarmos para as gerações futuras um mundo melhor, mais pacifico, mais justo, mais feliz e mais rico do que aquele que encontrámos. Desafio difícil mas que vale a pena correr em benefício de ambos os países.
General do Ex. João Baptista de Matos O General de Exército João Baptista de Matos, foi Chefe do Estado ? Maior General das Forças Armadas Angolanas, de Dezembro de 1992 a Janeiro de 2001. Nascido a 30 de Maio de 1955, em Sanza Pombo, província do Uíge, foi incorporado nas FAPLA a 17 de Julho de 1974, desempenhou várias funções e participou em muitas operações militares em todas as províncias de Angola. Diretor de inteligência militar, 1977-79 ; Comandante das forças especiais, de 1991-92; geral, chefe do Estado Geral das Forças Armadas de Angola - 1992-2001. Frequentou vários cursos militares e é Mestre em Ciências Militares pela Academia Militar Frunze, da Rússia. Possui várias medalhas nacionais e estrangeiras. Atualmente é Presidente do Conselho de Administração do Grupo Empresarial Genius, Presidente da Fundação Quissama e Presidente do Conselho Geral do Centro de Estudos Estratégicos de Angola.




