Centros Mundiais de Poder

11 Março, 2010 / Paulo César Milani Guimarães

A idéia de “CMP” pode aplicar-se a diversos momentos da História, talvez ao longo de toda a História, variando o âmbito do que se chama de “mundial” em cada momento, a natureza desse poder e a possível projeção histórica de um CMP.

Com efeito, o império persa sob Dario I (521 a 485 a.C.) foi o principal centro de poder do mundo conhecido em sua época, estendendo-se das margens do rio Indo até o Egito, às margens oeste e sul do Mar Negro (Trácia e Armênia), às margens sul e oeste do Cáspio, ao sul do Cáucaso, alcançando, a fronteira sul do Império, o mar de Omã, o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho.

Dario I era a expressão de poder de seu tempo, tendo realizado diversas instalações estratégicas, como portos e a construção de uma rede de estradas, a mais famosa a Estrada Real, com 2.500 km de extensão, ligando Susa no Golfo Pérsico a Sárdis, na Ásia Menor.

As grandes estradas ligavam as províncias a uma das quatro capitais do Império, Susa, Persépolis, Babilônia e Ecbátana.

Os persas falavam um idioma relacionado com o sânscrito e desenvolveram um alfabeto de 39 letras.

Tiveram enorme influência no Oriente Médio e no Império Helenístico, e por essas vias no mundo romano, contudo não influência de caráter econômico ou militar, mas de caráter cultural, político e religioso.

O Império Persa foi a primeira grande conformação política da História, militarmente superior ao seu em torno e a outras civilizações importantes, como assírios, babilônios, caldeus, cretenses, sumérios, fenícios, hebreus e egípcios, estes com população de 7 milhões de almas nos dias de dominação romana, e certamente não fora menor anteriormente, mas a permanência do CMP Pérsia não estava assegurada porque outras fontes de poder preparavam seu devir e cruzariam o caminho dos persas – que, de certo modo, os preparava para eles.

Naturalmente que os gregos, sucessores de egeus e fenícios e herdeiros dos egípcios em muita coisa, representavam outro grande CMP da antiguidade, contemporâneo em boa parte do Império Persa, embora mais antigo do que os persas (os tempos homéricos datam de 1200 a.C.).

Os gregos não chegaram a ter o poder militar dos persas, e foram destruídos pelas lutas internas.

Depois da queda do Peloponeso a federação grega estava exausta e a supremacia de Esparta durou 30 anos. Logo depois vieram os tebanos, com Epaminondas de Tebas (371 a.C.), mas é Felipe de Macedônia que logra em 330 a.C. o domínio de toda a Grécia, com exceção de Esparta. Felipe era um bárbaro e os macedônios atrasados. Mas tinha um filho, com 20 anos de idade, quando foi assassinado.

O moço era Alexandre, depois, Alexandre Magno, tivera como preceptor Aristóteles de Estagira, durante 12 anos moveu guerras para conquistar o Oriente Médio e depois, toda a Pérsia. E o conseguiu cerca de 320 a.C.. Em 323 morreu da febre dos pântanos da Babilônia, com 33 anos.

A conquista de Alexandre mudaria vencedores e vencidos e todo o mundo de seu tempo. O novo CMP, expressivo, poderoso, reunia as conquistas das duas maiores civilizações até então: a dos gregos e a dos persas. Surgiu o Império Helenístico – verdadeira base de tudo que a cultura dos tempos modernos e o mundo contemporâneo viria a desenvolver.

A própria vida urbana, característica do mundo de hoje, consagrada em Roma, mostraria seu esplendor em Alexandria, que contava cerca de 1 milhão de habitantes e dispunha de uma bem organizada biblioteca de 750 mil volumes.

A civilização helenística, CMP de seu tempo, tal como os de hoje, abrigaria diversas formas de governo, o desenvolvimento e o amor ao militarismo, o declínio da democracia (prezada na Grécia), tendência ao autoritarismo e à prepotência. Houve o desenvolvimento dos grandes negócios, a expansão do comércio, o zelo pela exploração e pela descoberta, o interesse pela tecnologia (inventos mecânicos), a concorrência desenfreada entre comerciantes, a excessiva preocupação com o conforto e a obsessão da prosperidade material, o inchamento das metrópoles com áreas congestionadas e habitações insalubres e um vasto abismo entre ricos e pobres.

Embora avançado em tantos aspectos e militarmente poderoso, o Império Helenístico fragmenta-se após a morte de Alexandre. As regiões dele derivadas entram em decadência por volta de 180 a.C., em 146 a situação era muito débil e em 30 a.C. praticamente todo o território helenístico estava sob o domínio romano. Durara pouco menos de 3 séculos.

Por essa época alguns aspectos característicos do passado oriental entram em transformação.

Quais os fatores que apontavam os futuros CMPs?

O caso romano é o seguinte. Roma como civilização dura 13 séculos (753 a.C. a 476 a.D.) e ainda continua na região oriental -Constantinopla – por mais 10 séculos.

Extraordinário CMP que irradiava poder desde o seu centro – Roma – até o Cáspio, o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho, o Adriático, o Egeu, o Mar Negro, o norte da África, as Ilhas Britânicas, a França, a Espanha, a Alemanha, a Hungria, incluindo a Ásia Menor, o Oriente Médio, a península grega, a Mesopotâmia tendo ao centro o Mediterrâneo, um autêntico lago romano. Tal era o império entre 98 e 117 a.D..

Fundara-se como poder na força da economia (principalmente das regiões conquistadas), na força das legiões e no discernimento de sua elite. Controlava o mundo conhecido. Ruiria, por força da multidão urbana desempregada e pobre, o crescimento da escravidão, a rivalidade de outros estados menores, a clamorosa corrupção política e moral e a discórdia entre as classes sociais.

A imensa máquina militar pedia recursos inexistentes. Além disso, a política tributária era escorchante e as pestes asiáticas dizimaram regiões do império. Estavam abertas as portas para as invasões bárbaras e o lento declínio do Império. Roma foi, certamente, o mais importante CMP da antiguidade e controlou praticamente todo o mundo conhecido então, exceto o Oriente. Enorme foi sua influência – que se estende até hoje -, mas quando as invasões bárbaras, por volta de 180 d.C. começaram, ninguém imaginava que fosse o fim do mais expressivo império de todos os tempos. O fim do Império – que não se deu numa data, mas num período – trouxe grandes consequências para o mundo daquele tempo. Com efeito, foram derrubadas barreiras internacionais, houve grande migração e caldeamento de povos, e o colapso da ordem antiga despertou profunda desilusão nos povos e um vago anseio por compensações religiosas e morais.

A atenção dos homens voltava-se para a “vida futura”, surgindo um tipo de religiosidade destinada a medrar como erva nova, pois mostrava aos homens um verdadeiro refúgio que os livraria de um mundo de ansiedade, confusão e medo.

Vale notar que o poder militar tem grande significação para a determinação de um CMP, mas em si não é determinante da dinâmica histórica, relativamente à duração e ao futuro daquele povo ou nação.

Roma ainda existia, governada por imperadores bárbaros cristianizados e um novo e importante ator preparava sua entrada na História. Enquanto os imperadores do Ocidente e do Oriente, Roma e Constantinopla, não se entendiam, Maomé reúne os árabes fazendo do ardor natural deles um instrumento para espalhar a sua doutrina ensinando-lhes (o que se faz até hoje) que “a unidade de Deus deve corresponder à unidade dos crentes”, proibindo-lhes que se guerreassem entre si e prometendo felicidades eternas aos que tombassem pela fé. Depois de 622, data em que se retira para Medina (Yatreb), até 632, data da morte do profeta, é intensa a preparação doutrinária, diplomática e militar. O Islã ganha força e certeza. Por volta de 700 os seguidores de Maomé lançam-se ao assalto do mundo. Em dez anos conquistam a Síria, a Pérsia, o Egito, a Cirenaica, a Armênia, e atingem as fronteiras leste e oeste da Europa. Em 711 , numa só batalha, destroçam as defesas visigóticas da Espanha. No outro extremo do continente, Constantinopla resiste heróica e vitoriosamente de 711 a 718. Na Gália, o duque de Aquitânia, Eudes, impõe derrota aos sarracenos e a vitória da Carlos Martel em pessoa, 720 a 737, os expulsa do continente, com exceção da Espanha, onde ficarão até o século XII.

Dos séculos IX ao XI, os muçulmanos foram gradualmente empurrados para o sul, mas mantêm o controle das margens do Mediterrâneo e de suas ilhas estratégicas (Creta, Sicília e Malta), “Os cristãos já não podem fazer flutuar uma tábua sobre o mar”, escreve um cronista à volta da metade do século VIII.

Assim, o controle do Mediterrâneo pelos sarracenos terá enormes conseqüências: mergulha as costas da Itália, da Provença, da Septimânia, da Catalunha, na insegurança e força a migração dos centros políticos europeus para o norte. Em resumo, este novo poder apaga dois traços característicos da Antiguidade, a unidade romana e a supremacia mediterrânica, o que dá origem à própria Idade Média.

A presença do Islã na Espanha, criando em Córdova o mais brilhante Estado da Europa, com uma cultura cujo fulgor eclipsou o de Damasco e de Bagdá – de tal sorte que pela primeira vez houve dois califas no Islã (Córdova e Bagdá) -, acarreta um outro efeito importante, pois orientou o avanço de Carlos Magno para o oeste (a Baviera, a Lombardia e a Córsega no Mediterrâneo), forçando que evitasse a zona fronteiriça espanhola.

Os sarracenos, os muçulmanos – o Islã, enfim, teria sido a seu tempo um CMP, embora lhes faltassem forças militares e navais mais poderosas. Faltavam-lhes forças militares e navais. Se permaneceram um século e meio no controle do Mediterrâneo, deve-se mais ao fato de que não tinham como sair dali, de vez que os bizantinos, com poderosa esquadra, bloquearam os portos muçulmanos no oeste. Mas o fato é que os sequazes de Maomé tornaram difíceis as relações do Oriente com o Ocidente; deixaram em farrapos a Grécia, a Itália, a Macedônia, a Trácia e a Ásia Menor; dominaram a Síria, o Egito, o Norte da África e a Espanha. No Ocidente e no Oriente cortaram laços e apagaram traços. Sua ação foi de tal ordem que hoje mal podemos imaginar que a Argélia e a Tunísia, por exemplo, fizeram parte um dia do mundo latino e cristão. O Islã quebrou a unidade e as idéias-força do passado.

Esses centros de poder da Antiguidade nada têm a ver com os cp’s do “novo ordo seculorum” que dependem da conjugação de tecnologia, economia forte e poderio militar, para ser óbvio. Contudo, esses fatores nada dizem da possível duração e influência na História de um centro mundial de poder contemporâneo, haja vista o caso da URSS.

O que vai determinar isso é sua capacidade de resolver crises paradigmá-ticas autênticas, de lidar com os grandes e graves problemas atuais do mundo, que se encontra hoje numa verdadeira esquina da História, dependente, grande parte dele, de um modelo civilizacional completamente esgotado (já no limite), segundo diversos aspectos – econômico, ecológico, social, moral, material, militar, político, etc.

A questão contemporânea é saber-se se os atuais CMPs podem gerar capacidade inovadora suficiente para vencer esses limites, ou se têm recursos culturais e sociais para abdicar do modelo. Estas são as questões que ditarão o futuro, quer de um CMP, quer do mundo.

As aparências são evidentemente enganosas. O fenômeno que se decidiu chamar de globalização é, na verdade, o acerto dos poderosos face à grave crise de rentabilidade do capital, evidente na 2ª metade do século XX. Pela primeira vez na História, um problema desse tipo não receberia o tratamento usual: a guerra entre os competidores. E não receberia porque a guerra era (e é) um perigo insuportável num mundo de armas nucleares, químicas e bacteriológicas. Assim, se não era mais previsível a possibilidade de um salto qualitativo, proporcionado por uma nova fonte de energia ou por uma tecnologia revolucionária – e se o recurso à guerra estava fora do jogo – restavam as reformas do capitalismo moderno para permitir mais circulação do capital e novo incremento da rentabilidade. O Ocidente verificava, vitorioso sobre o comunismo que, no entanto, Marx tinha razão: os mecanismos de acumulação/concentração, típicos do e necessários ao capitalismo, deprimem com o tempo a rentabilidade de capital, por obstar uma circulação ideal segundo as variáveis de volume e velocidade.

Essa reforma tem o nome de globalização, é muito extensa e complexa, e ainda está em desdobramento, mas seu objetivo é claro: aumentar a rentabilidade dos investimentos.

As conseqüências têm sido impressionantes. Em poucas décadas praticamente todo o conjunto de países periféricos (chamados também de mercados emergentes) passou à condição de grande devedor de grandes corporações financeiras internacionais sediadas nos países centrais, gastando toda a sua poupança nacional para pagar juros, de tal modo que a possibilidade de aumentar o endividamento (novos empréstimos) é ditada pelo aumento da capacidade de pagar juros. Se essa capacidade aumenta, a tomada do empréstimo, por uma ou outra justificativa, é agora obrigatória. Ou seja, a poupança da sociedade - e do Estado, por compressão do orçamento público – pertence aos credores internacionais, qualquer que seja sua extensão.

Se antes havia a famosa inflação – que dizia certo ministro, “destruía os valores da sociedade” – agora existe a dívida, o principal e seus juros, com o agravante que, da maneira atual, o ciclo da acumulação capitalista acaba também exportado. O capitalismo periférico não acumula mais. Morreu.

Isso é muito grave, mas não é tudo.

A nova sistemática financeira do mundo implicava na revogação das políticas sociais e assim suprimiu-se o compromisso keynesiano, no qual se havia fundado uma democracia social, com paz duradoura entre as classes sociais, sob o sinal das bandeiras do pleno emprego e da redistribuição de renda. Agora, a sociedade deve privilegiar com recursos, não mais o trabalho ou as carências sociais, mas o capital – para recebê-lo entusiasticamente, de portfólio ou inversão direta estrangeira, com banda de música, ainda que para comprar empresas já existentes e lucrativas, de preferência pertencentes ao poder público, porque concessionárias de serviços essenciais, e, tantas vezes, monopolísticas (como distribuição de gás, de água, estradas, portos etc etc).

De outra parte vem a tomada do mercado nacional por empresas internacionais que trazem uma concorrência insuportável para agentes produtores locais: escala de produção mundial e taxas de juros do país de origem (4, 7 ou até 10 vezes menor do que no país hospedeiro).

É claro que tudo isso tem muito a ver com o equilíbrio das sociedades e a coesão social.

Suportarão os países periféricos semelhante mecanismo por muito tempo? Se não, qual será a situação dos atuais CMPs diante de uma crise planetária?

De outra parte, o fim das políticas keynesianas e de seu compromisso de paz social, também afeta os países centrais e neles – mesmo no caso de um CMP – pode mexer com muita coisa, inclusive a coesão nacional e o poder militar.

Parece claro que os países centrais – dentre eles CMPs – não mostram disposição de enfrentar realmente as crises paradigmáticas – como a finitude próxima do petróleo (40 anos talvez) ou o esgotamento do ambiente natural ou outra condição limite, por exemplo, no campo político – isto porque a tentativa de solucioná-las é muito onerosa, e porque não há entendimento entre eles e dentro de cada um deles sobre a urgência dessas questões.

No entanto, ainda há outras questões críticas propriamente econômicas concernentes aos enormes déficits de fundos públicos/privados de pensão, orçamentos públicos e balanças comerciais. Quem enfrentará o compromisso com pensões nos EUA e na Europa daqui a 30 anos?

De resto, os números da demografia são desfavoráveis. Em 50 anos a população mundial passará de 5,7 para 10 bilhões e 90 por cento desse crescimento estará situado no mundo periférico, 60 por cento dele em países miseráveis, enquanto a população européia envelhecerá ainda mais e reduzir-se-á significativamente.

Entre os principais CMPs de hoje, contudo, inscreve-se a República Popular da China, que é o único integrante desse elenco, como Estado nacional, que dispõe de condições sociais e culturais tanto para participar do modelo como para abdicar dele, podendo combinar partes dessas soluções. A engenhosidade dos chineses é conhecida históricamente e o país já esteve dividido, em formas sociais e culturais diferentes mas concomitantes, algumas vezes. É uma unidade na diversidade acima de qualquer comparação ocidental, há séculos passando por muitas experiências, até mais recentemente a revolução cultural e a atual situação juridicamente muito complexa.

Com efeito, desde 1979 a China vem criando suas SEZ – zonas econômicas especiais -junto ao litoral, para favorecer o aporte de capital estrangeiro e de tecnologia moderna. As primeiras foram nas províncias costeiras de Fijuan e Guangdong, além de outras na fronteira com Hong Kong e a ilha de Hainan. Desde 1990 a lista cresceu enormemente, sempre com o mesmo objetivo, e segundo o princípio “dois sistemas, um só país”.

Um outro CMP contemporâneo não é um Estado westfaliano, mas uma vigorosa ideologia religiosa que une povos e Estados – 40 Estados e cerca de 1 bilhão de habitantes -, o Islã. Os muçulmanos, tal como os chineses, tanto podem se incorporar ao modelo ocidental como abdicar dele. Aliás, não aderiram ao “novo ordo” iluminista e não só não aderiram, como o denunciam.

O Islã não separou a vida civil e política da fonte religiosa. Ainda que dos 40 países muçulmanos alguns sejam insignificantes e poucos sejam repúblicas islâmicas, é certo que todos regem a organização social e comunitária e a política, pelos preceitos do Corão, o que é a antítese do que fizeram os ocidentais, relegando a segundo plano o cristianismo como referencial ético, fonte das idéias e ideais de vida social – gerador de certeza, unidade e vigor -, para submeter-se à lei positiva, estabelecida mesmo, tantas vezes, a despeito da lei natural, por maiorias eventuais em assembléias.

É evidente que a força social dessa fonte é muito menor do que a força e o sentido universal do referencial permanente de caráter axiológico de fundo espiritual.

O Ocidente usufruiu dessa mudança, e muito, em termos de progresso material e avanço técnico, mas as suas sociedades não são sempre modelos consideráveis. As sociedades do Islã, por estarem movidas por um esquema não-secular e de fundo religioso, têm a possibilidade de, tal como os chineses por outras razões, abdicar do modelo tecnológico-capitalista do Ocidente.

Contudo, neste momento da História nada parece ter força e meios suficientes para suplantar os Estados Unidos - e seus aliados ocidentais – e o Japão. Tamanha força é inconfrontável e pode muito, mas ainda não pode, do ponto de vista político, controlar objetivos simultâneos dispersos pelo mundo, e talvez nem os localizados, de modo absoluto e completo (vide Iraque).

De outra parte não há o vislumbre de que os problemas graves hoje existentes no sistema técnico ou em seus insumos não possam ser resolvidos via ciência e tecnologia, ainda que a custos sociais e econômicos muito elevados.

Tecnicamente os americanos podem afirmar que terão condições inclusive de continuar a civilização humana no espaço, com pequenos grupos, se o planeta vier a mostrar-se inviável no futuro.

Entretanto permanece atual a assertiva de Toynbee em passagem célebre:

“O grau de avanço de uma sociedade será menos significativo do que a medida do seu sucesso em oferecer solução aos problemas de poluição, de exaustão de recursos e da tensão social, que são, no presente momento, os elementos concomitantes não-vencidos pelo sistema industrial. O futuro poderá revelar uma resposta não-ocidental a um problema que foi apresentado originalmente pelo Ocidente.”

Assim, se parecem óbvios os CMP atuais, nada se pode precisar quanto ao futuro deles. O mundo é incerto e a mudança, rápida. Um cientista social fez uma advertência muito importante, na década de 70, mostrando que a hecatombe nuclear e o holocausto bacteriológico, ingredientes típicos de uma fase bélica, poderiam ser responsáveis pela desorganização social, perda de padrões culturais e de coerência dos sistemas culturais em vigor. Isso levaria a um retrocesso sério, que representaria avanço para outros, mais atrasados, e que perderiam menos em termos de padrões culturais avançados e coerência de suas culturas, suportada por um referencial externo de tipo religioso.

Talvez semelhantes catástrofes possam ser evitadas, mas seus efeitos podem estar sendo perseguidos por novas formas de luta – a principal delas, o terrorismo – que pode lançar mão de qualquer tipo de arma, certamente de alcance limitado, porém com efeitos globais.

Impressiona lembrar que os romanos durante séculos escreveram sobre direito, filosofia e política, e tinham por certa a segurança do Estado romano, deixando aos pessimistas de plantão preocuparem-se com invasões de povos bárbaros, em geral muito atrasados, e com as idéias ilógicas e ridículas dos cristãos.


Paulo César Milani Guimarães

Paulo César Milani Guimarães é Cientista Social, Professor de Sociologia, Chefe da Divisão de Assuntos Psicossociais da ESG.

Últimos Artigos

Insira um Artigo

CEPEN.org