Nossa vitória final…
3 Março, 2010 / General Paulo César de Castro
As asas do meu ideal… A glória do meu Brasil…
Em Pistóia, turistas brasileiros iniciavam o percurso pela senda da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Aqueles turistas, além de brasileiros, eram, também, irmãos de armas, acompanhados de suas esposas, que se dispunham a visitar sítios até hoje marcados pela passagem e pelos combates travados por nossos sempre lembrados e queridíssimos pracinhas. Aqueles turistas e irmãos de armas eram quase todos do Exército. Perfeitamente integrados ao grupo e, também, com suas esposas, um oficial aviador da Força Aérea Brasileira e dois generais do Exército Uruguaio, um dos quais ex-aluno da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.
A viagem turística bem poderia ser batizada como exercício no terreno (ET) de História Militar, o ET do Vale do Rio Reno. A família militar aquartelou-se em excelente hotel do Exército Italiano. Um hotel de trânsito em Florença. Não poderia ter sido melhor a escolha, posto que visitar aquela pérola da renascença italiana permitia ainda desfrutar da cidade na qual o General Truscott, substituto do Gen Mark Clark como Comandante do V Exército, instalara seu posto de comando (PC). Em Florença estiveram, durante a guerra, os generais Dutra e Mascarenhas. Visitá-la significou ajoelharmo-nos e rezarmos na Igreja de Santa Maria Novella, na qual também se persignou e orou o Comandante da FEB3.
Em Pistóia, pela aposição de flores no Monumento Votivo Brasileiro, homenageamos aqueles que tombaram pela causa da liberdade e que, por seu gesto, honraram o juramento de inteira dedicação ao serviço da Pátria, juramento proferido por todos nós, militares brasileiros, “… cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da própria vida”. Naquele Monumento repousam os restos mortais de um combatente brasileiro desconhecido, encontrados em Montese, muitos anos após a Guerra, mas que não puderam ser identificados.
Em Pistóia começamos a compreender em sua plenitude o significado da “Nossa Vitória Final… As asas do meu ideal… A glória do meu Brasil…” A presença de autoridades italianas, municipais e regionais, todas com mensagens: de cumprimentos fraternos; de agradecimentos sinceros pelo generoso sangue derramado; de autêntica alegria em receber comitiva de brasileiros; de honra aos soldados brasileiros, na guerra representados pelos pracinhas, e, durante nossa visita, por nós mesmos e nossos adidos, que nos acompanharam e orientaram em cada sítio. Ali estávamos como descendentes dos guerreiros da liberdade. Os soldados-adidos, evidenciando relacionamento fraterno com os italianos, demonstravam para os soldados-turistas como foram se tornando cada vez mais sólidos os laços de amizade tecidos durante os dias de guerra e privação, sempre fortalecidos ao longo dos tempos pelas mútuas e sucessivas demonstrações de amizade, ano a ano trocadas entre os toscanos e os militares brasileiros.
As emoções foram se sucedendo. Assim, em Monte Castelo, Montese, Castelnuovo, Zocca, Fornovo e Collechio. A Bandeira Brasileira hasteada ao lado do pavilhão italiano, os monumentos aos nossos homens de armas e as placas recordatórias da luta pela Libertação da Itália - denominação pela qual os italianos se referem à 2ª Guerra Mundial - perpetuam a passagem da Força Expedicionária Brasileira por aqueles rincões e mantêm viva a chama daquela amizade especial e eterna forjada nos campos de batalha.
Ratificamos, in loco, que não apenas as tropas aliadas lutaram contra os inimigos nazista e fascista: inspirados pelo mesmo ideal, ali também combateram guerrilheiros locais, os “partiggiani”. Imagine o leitor a forte e inesquecível emoção de ouvir, ao sermos recepcionados em Castelnuovo, a voz embargada pelo choro contido e de receber o abraço ainda firme e sinceramente reconhecido do Senhor Lino, um octogenário partiggiani, que pelejou ombro-a-ombro com a tropa brasileira.
A emoção se renova quando visitamos as sedes governamentais daquelas paragens, nas quais encontramos o pavilhão do município, o gonfalão, como o chamam, ostentando a Medalha do Pacificador, outorgada pelo Exército Brasileiro, lado a lado com medalhas concedidas por associações de veteranos e de ex-combatentes do Brasil. E é preciso falar dos museus, nos quais fotos, mapas e peças da época marcam nossa contribuição para a libertação daquele povo.
Voltando ao ET de História Militar, foi marcante a oportunidade de reconhecer vias de acesso de batalhões, PC da 1ª DIE, objetivos, limites e outras medidas de coordenação e controle; a par de identificar e de assimilar, no próprio terreno, as manobras montadas por nossa Divisão, como os ataques coordenados a Monte Castelo, a Castelnuovo e a Montese, de cuja torre foi possível entender, perfeitamente, porque o Marechal Mascarenhas de Moraes considerou a posse dessa localidade a chave para a conquista do vale do Panaro. E, com a mesma clareza, visualizamos as manobras de aproveitamento do êxito, em Zocca, e a de perseguição, em Collechio-Fornovo.
No mesmo local em que foi assinada a rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã, em Pontescodogna, festejamos “Nossa Vitória Final…” e desfrutamos do merecido repouso pós-exercício no terreno.
Não podemos omitir a emoção de ouvir palavras de alguns italianos que não se cansavam de elogiar o comportamento da tropa brasileira, cujos homens eram conhecidos por tratarem muito bem as famílias italianas e com elas compartilharem as próprias refeições. Esta é a maneira de ser do soldado brasileiro, bravo e solidário, audaz e amistoso, patriota e compreensivo, criativo e comunicativo, atributos que tanto têm marcado nossa atuação, não apenas naquelas paragens durante a II Guerra Mundial, mas também em São Domingos, Angola, Moçambique, Timor Leste e, hoje, no Haiti.
Foi assim que a “Cobra fumou!”
É assim que a “Cobra continua fumando!”
E foi assim que a Força Expedicionária Brasileira conquistou “Nossa Vitória Final…!” Foi assim que ela escreveu para as gerações dos soldados de hoje o que são “… As asas do meu ideal…!” Foi assim que legaram para os homens e mulheres de armas do Século XXI a lição de como se constrói “… A glória do meu Brasil…!”
General-de-Exército Paulo César de Castro - O General-de-Exército Paulo Cesar de Castro é natural da cidade do Rio de Janeiro. Foi aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ), de 1956 a 1962, e incorporado às fileiras do Exército, em 01 de março de 1963, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Foi declarado aspirante-a-oficial da arma de Artilharia em 18 de dezembro de 1965. Em 1968, especializou-se na Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea, e aperfeiçoou- se em Artilharia, na Escola de Aperfeiçoamento de oficiais (EsAO), em 1976. Realizou o Curso de Comando e Estado-Maior na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), em 1980 e 1981, o Curso de Oficial de Estado-Maior, na Escola Superior de Guerra Tenente-General Luís Maria Campos, do Exército Argentino, em 1985 e 1986, e ainda o Curso de Política e Estratégia Marítimas, na Escola de Guerra Naval, em 1993.
- Desempenhou as funções de instrutor dos Cursos de Artilharia da AMAN, da EsAO e ECEME. Comandou o 21º Grupo de Artilharia de Campanha, “Grupo Monte Bastione”, unidade tradicional de sua arma, sediada no Rio de Janeiro. Como Oficial de estado-maior exerceu funções no Comando da 9a Brigada de Infantaria Motorizada Escola; no Estado-Maior do Exército; na Secretaria- Geral do Conselho de Segurança Nacional; na Secretaria de Assessoramento da Defesa Nacional, tendo sido membro da delegação brasileira à reunião bilateral Brasil-Argentina de energia nuclear; membro da delegação brasileira à reunião bilateral Brasil-China de energia nuclear, na China; e membro da delegação brasileira à Conferência Geral da Agência Internacional de Energia Atômica, em Viena, Áustria.
- Como Oficial-General, foi Diretor de Ensino Preparatório e Assistencial (DEPA), Diretor de Promoções (DPROM), Comandante da ECEME, Diretor de Formação e Aperfeiçoamento (DFA), Comandante da 4a Região Militar/4a Divisão de Exército e Secretário de Economia e Finanças (SEF) e Chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEX).

