Discurso do Brigadeiro Hélio Gonçalves
Discurso em Homenagem aos Pracinhas e ao General Meira Mattos
Bolonha, 23/Fevereiro/2010
Inicialmente, gostaria de externar a minha gratidão aos meus compatriotas Brasileiros e irmãos Italianos pelo momento impar de proporcionar esta solenidade.
Aqui teremos a felicidade de enaltecer a memória de heróis brasileiros que com muita bravura, contribuíram para que a liberdade entre as nações prevalecesse e, consequentemente, fosse sepultada a tirania e a barbárie entre povos irmãos e pudéssemos usufruir de situações de paz e respeito mútuo, na nossa sociedade organizada.
Assim sendo, é com elevada honra que tenho o privilégio de dirigir-me às dignas autoridades aqui presentes que, uma vez mais, reverenciam feitos heróicos dos nossos pracinhas em terras da Europa.
Essas reminiscências nos enchem de orgulho, ao mesmo tempo, que nos obrigam a reconhecer a gratidão que temos pelos irmãos de outras nações, como os ilustres senhores aqui presentes que, generosamente, propiciam essas marcantes efemérides.
Estamos certos de que todos se recordam das meritórias ações aqui desenvolvidas, onde a vontade e o destemor dos nossos combatentes superaram eventuais limitações para a missão a eles atribuída, mas, realizada com heroísmo e grande sucesso.
Estamos diante da data comemorativa da inesquecível Tomada de Monte Castelo, que tantas lembranças nos trás.
Sabemos ser uma verdade indiscutível que a conquista de Monte Castelo não foi nada fácil. As primeiras tentativas, realizadas nos dias 24, 25 e 26 de novembro de 1944, não obtiveram sucesso.
Uma quarta tentativa foi realizada, mas, também, não se conseguiu o êxito esperado. Em dezembro, as nevascas e o intenso frio do inverno europeu tornaram as condições ainda mais desafiantes aos brasileiros combatentes.
O cenário era desfavorável. Os nossos pracinhas se viram obrigados a ficar entrincheirados em escavações construídas no solo pedregoso. Além dos atiradores adversários, os brasileiros tiveram que enfrentar o frio rigoroso e o risco de suas traumáticas conseqüências.
Assim, em fevereiro de 1945, com o final do inverno, uma nova operação foi lançada. Num esforço conjunto com militares do Exército Americano, os pracinhas brasileiros atacaram as posições inimigas.
As nossas forças terrestres, neste feito, também contaram com a importante ajuda da artilharia, comandada pelo General Cordeiro de Farias e da Força Aérea Brasileira, por intermédio do 1º. Grupo de Aviação de Caça, liderada pelo Major-Aviador Nero Moura.
Naquela ocasião, esse destemido Grupo de Aviação de Caça teve oportunidade de apoiar diretamente a FEB; na véspera da conquista de Monte Castelo pela Força Expedicionária, em 20 de fevereiro de 1945. O ataque de esquadrilhas brasileiras foi fundamental, pois tinha eliminado definitivamente, a resistência inimiga numa elevação, no flanco da tropa brasileira, arrasando a resistência germânica.
Todo o esforço despendido fez com que, exatamente, no dia 21 de fevereiro, após doze horas de combate, finalmente, fosse conquistado o grande objetivo daquele momento - Monte Castelo.
Este fato forjou um exemplo inesquecível de entendimento, de fraternidade e porque não dizer, de competência dos expedicionários do ar e da terra, que com a nossa Marinha constituíram a Força Expedicionária Brasileira.
Exemplo disso é que, ao chegarem ao Brasil um grupo seleto de Oficiais, se reuniram e decidiram que necessitávamos de uma Escola de Altos Estudos Estratégicos, quando planejaram e aprovaram nos escalões superiores, a criação da Escola Superior de Guerra – ESG, em 20/ago/1949, com esse espírito igualitário e de união, visando à defesa e o desenvolvimento do nosso país.
Entretanto, em que pese à nefasta estatística de perda de importantes vidas no desempenho da missão, diversos militares se destacaram. Entre eles, o General Zenóbio da Costa, o General Humberto Castelo Branco, sendo o primeiro presidente do regime militar, que serviu na Itália como tenente-coronel, sendo Chefe da Seção de Operações, subordinado ao Comandante Geral da FEB - o glorioso General Mascarenhas de Moraes, todos condecorados por suas destemidas ações no Teatro de Operações e muitos outros.
Este excepcional feito pode bem sintetizar a FEB e o espírito liberal, aberto, democrático do povo brasileiro, representado por seus soldados, aviadores e marinheiros que, colaboraram com outros povos civilizados do mundo, na luta contra a opressão.
Compondo esse especial grupamento de heróis das nossas Forças Armadas estava o estimado e saudoso Gen. Meira Mattos.
E como é do conhecimento de todos, o insigne brasileiro, Gen. Meira Mattos, nasceu em São Paulo em 1913, concluindo o curso da Academia Militar das Agulhas Negras em 1936 e, como jovem oficial, atuou com destaque em diversas guarnições do Exército brasileiro, antes de se deslocar para a Itália, no posto de Capitão, integrando a Força Expedicionária Brasileira.
Na Itália, comandou a briosa Companhia de Fuzileiros, tendo em 12/dez/1944, realizado um eficaz ataque ao inimigo sediado em Monte Castelo.
Sempre foi um oficial-exemplo, pelo que representava e por suas realizações, no desenvolvimento do Exército brasileiro e, também, pelas idéias voltadas ao crescimento do nosso país.
O Gen. Meira Mattos estabeleceu os fundamentos da posição dos oficiais moderados em uma série de livros e artigos publicados sob os auspícios do Exército, principalmente, nas áreas de Geopolítica e Estratégia, em que detinha grande experiência e notável saber.
Profundo conhecedor das ciências sociais, com estudos publicados sobre o Estado, o poder, a política e questões militares, tendo, em certa ocasião, o renomado jurista Ives Gandra Martins citado que o Gen. Meira Mattos “é sem dúvida, entre os militares de todo o mundo, um dos maiores estrategistas e geopolíticos do século XX”.
Assim, o nosso país muito deve a esse inesquecível brasileiro, não só por suas atuações em defesa da pátria que tanto amava, como também, pelos ensinamentos em que teve a ventura de transmitir às gerações que lhe sucederam.
Muito obrigado Gen. Meira Mattos pelo importante legado que nos deixou! A sua obra jamais será esquecida e, estejam certos os seus familiares, que nos honram com suas presenças, o seu acervo cultural servirá de referência a todos os amantes das coisas do nosso país - Brasil e dos defensores das liberdades e da Democracia!
Como pudemos constatar, essa heróica página da nossa história foi escrita com suor e sangue dos nossos valorosos e bravos pracinhas.
Lembro-me que, em 1988, quando em missão do Governo do Brasil, da emoção que tive ao chegar ao Cemitério dos brasileiros, em Pistóia-Itália, pelo que aquele Campo Santo representava e representa para todos nós defensores da Democracia e da liberdade entre os povos e nações.
Conclusivamente, cremos que as doutrinas sociais totalitárias e carismáticas, como o nazi-facismo no passado e o comunismo nos dias atuais, se posicionam como utopias e falácias e se traduzem, na prática, pela mais cruel e inaceitável das ditaduras, onde o homem é transformado em submisso ao estado.
Os expedicionários brasileiros lutaram, bravamente, em atos de respeito às vítimas do Holocausto e pela liberdade, nessa que foi a maior guerra do século passado.
Prossigamos no caminho que os nossos pracinhas e heróis Febianos nos apontaram e continuemos a construir nações que sejam grandes, pujantes e, sobretudo, democráticas. Jamais deveremos permitir que tão nobres ideais sejam, novamente, ameaçados.
Perseveraremos na conservação desses ideais da nossa nacionalidade, lutando contra sentimentos incompatíveis com a nossa histórica formação, agradecendo aos pracinhas e ao Gen. Meira Mattos por terem existido e nos deixado esse incomensurável legado.
Com o nosso reconhecimento pela oportunidade da participação da ADESG/AN, agradeço a atenção de todos e desejo que Deus, em sua infinita bondade, os protejam, para sempre.
Muito Obrigado.
Brigadeiro Helio Gonçalves, Presidente da ADESG / AN.

